A tilápia-do-Nilo tem um papel determinante na piscicultura e no consumo de peixe de aquicultura no Brasil, embora a sua ocorrência fora dos viveiros levante questões ambientais. Nos reservatórios em que estabelece populações numerosas, esta espécie pode remexer os sedimentos, tornar os nutrientes mais disponíveis, diminuir a transparência da água e alterar as relações entre o plâncton e os peixes nativos.
De que forma chegou a tilápia-do-Nilo aos reservatórios brasileiros?
A tilápia-do-Nilo é um ciclídeo africano introduzido no Brasil para aumentar a produção de pescado. O seu rápido crescimento, a reprodução eficaz e a capacidade de se adaptar a águas quentes favoreceram a expansão da aquicultura, levando-a a tornar-se na principal espécie da piscicultura brasileira.
O risco surge quando os exemplares escapam dos viveiros ou são libertados em ambientes naturais. A produção aquícola, a pesca recreativa e as deslocações efectuadas por pessoas constituem algumas das principais formas de propagação de peixes exóticos em rios e reservatórios.
- Fugas durante cheias ou devido a falhas nas estruturas de criação;
- Libertações intencionais para criar novos locais de pesca;
- Transporte de exemplares entre diferentes bacias hidrográficas;
- Elevada capacidade reprodutiva em águas tropicais;
- Adaptação a reservatórios transformados pela actividade humana.
Porque é que o peixe remexe o fundo e modifica os sedimentos?
Na época de reprodução, a espécie pode escavar zonas pouco profundas para construir ninhos, deslocando as partículas acumuladas no leito. A alimentação e a deslocação dos peixes também causam bioturbação, um processo que ressuspende sedimentos e torna a água mais turva. Documentação ambiental indica que este comportamento pode afectar organismos bentónicos, invertebrados e a vegetação aquática.
- As partículas finas voltam a entrar na coluna de água;
- A transparência pode baixar em zonas com elevada densidade de peixes;
- Os nutrientes acumulados no fundo regressam à circulação;
- As plantas submersas passam a receber menos luz;
- O habitat de pequenos organismos é alterado.
De que modo o azoto e o fósforo influenciam a qualidade da água?
A tilápia não modifica a dinâmica dos nutrientes apenas ao revolver o substrato. As excreções e os resíduos associados a populações abundantes também devolvem azoto e fósforo à água. Em experiências realizadas no reservatório de Furnas, a presença de tilápias com elevada densidade aumentou a disponibilidade destes elementos e incentivou o crescimento do fitoplâncton.
Quando esta fertilização interna se junta a descargas de esgotos, erosão e resíduos da aquicultura, o reservatório pode evoluir para condições eutróficas. Entre as consequências estão o aumento das algas, a perda de transparência e um risco mais elevado de florações de cianobactérias, ainda que a intensidade dependa do número de peixes e das particularidades de cada ambiente.
O efeito estende-se à cadeia alimentar aquática
Investigação realizada em reservatórios tropicais indica que a tilápia-do-Nilo pode reduzir os organismos maiores do zooplâncton e favorecer certos tipos de algas de menor dimensão. Esta mudança reduz a disponibilidade de alimento para larvas e juvenis de espécies nativas, sobretudo para os que dependem do zooplâncton e da visão para encontrar presas.
- Menor abundância de organismos de maior dimensão no zooplâncton;
- Proliferação de grupos específicos de algas;
- Menos alimento nas fases iniciais dos peixes nativos;
- Competição por espaço e recursos alimentares;
- Alterações na composição biológica do reservatório.
Como compatibilizar a importância económica com a protecção ambiental?
A tilápia-do-Nilo representa uma parte substancial da produção brasileira de peixe de aquicultura e apoia criadores, unidades de processamento, restaurantes e mercados. A sua relevância económica não elimina o risco ecológico quando se instala fora dos sistemas de produção. O desafio passa por reforçar as estruturas para evitar fugas, fiscalizar as libertações e impedir o transporte para bacias onde a espécie ainda não ocorre.
A situação reproduz um padrão observado em introduções de peixes que começaram por ser uma solução e acabaram por se transformar numa invasão. Nos reservatórios brasileiros, acompanhar as populações em liberdade e travar novas dispersões é mais eficaz do que tentar restaurar a transparência, os sedimentos e a cadeia alimentar depois de a espécie se ter espalhado.
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