Passados 17 anos desde a criação, os restaurantes do grupo 100 Maneiras mudaram de proprietários e deixam de estar nas mãos de Ljubomir Stanisic, Nuno Faria e Nelson Santos. A transferência foi concretizada no início do ano para o grupo Dhurba Subedi, informou o 100 Maneiras em comunicado. Sob liderança de Jamuna Subedi, Dhurba Sapana, Niraj Subedi e Kismita Subedi, este conglomerado é dono de mais de uma centena de restaurantes em vários pontos do mundo, incluindo em Lisboa o Las Ficheras e o UMA Marisqueira.
Os três anteriores donos do grupo 100 Maneiras deixaram os cargos de gerência e de gestão dos três espaços no início de 2026. De acordo com a nota, acompanharam de perto todo o processo, numa transição assumidamente discreta e estável, centrada em garantir a continuidade das equipas.
O comunicado não indica, contudo, se Ljubomir Stanisic continuará a ter algum envolvimento operacional ou criativo nos projetos depois da mudança de mãos. O chef também não se mostrou disponível para comentar esta alteração.
Carta de amor na despedida
Na mesma comunicação, o grupo de restauração assinala “o fim de um ciclo, mas também um início”, reforçando que “o 100 Maneiras é gente” e que nunca se contou “pelos dedos” nem se limitou “a um, dois ou três restaurantes”.
O projeto, criado pelo chef Ljubomir Stanisic como “o primeiro filho”, foi descrito como “primeira vitória, mas também primeira derrota”, acabando por se transformar numa “segunda família” e num lugar de evolução pessoal e profissional. Impulsionado por “ideias, pessoas, coragem” e por uma “certa loucura” criativa, foi construindo um caminho de reinvenção contínua, mostrando “como, sem nada, mas com a ajuda de muitos, podemos quase tudo”, mesmo quando surgiram fases difíceis - de “mais lutas, mais dívidas” -, com o peso “dos investimentos”, “dos empréstimos” e do aumento de custos.
Nesta “carta de amor”, o grupo deixa um agradecimento a todos os que integraram o percurso, desde a equipa - a tal “essa turba de gente díspar” - até clientes e parceiros que ajudaram a erguer uma “grande escola de restauração”. “Temos lágrimas, claro. Porque um filho não se desamarra sem elas”, lê-se, num equilíbrio entre o orgulho pelo que foi feito e a intenção de continuar. Volta a sublinhar-se que “o 100 Maneiras nunca foi apenas um” e que sempre dependeu da comunidade e da “boa vontade dos parceiros”, enquadrando a mudança com a ideia de que “o que a lagarta chama de fim do mundo, o mestre chama de borboleta”.
Porque isto é apenas “o fim de um ciclo”, e não “o fim das lutas”, o texto deixa a ambição: “queremos construir mais, e, se possível, melhor”, avançando “noutras latitudes, de outras maneiras, com outros nomes, mas sempre sem medo, sem merdas”. E remata: Somos, fomos, seremos sempre sem maneiras, com cem maneiras de olhar o mundo, a vida, os outros, sempre diferentes, sempre caminhando em frente, porque para trás só mija a burra “LJUBIM VAS” (amo-vos)".
Três conceitos que marcaram Lisboa
O Bistro 100 Maneiras, inaugurado em setembro de 2010 num edifício histórico com inspiração Art Déco, apresenta-se como um lugar eclético onde se cruzam arte, gastronomia, música e coquetelaria. Com cerca de 70 lugares distribuídos por vários ambientes, tornou-se um símbolo de prazer e de informalidade sofisticada - reconhecimento reforçado com o primeiro lugar nos Monocle Restaurant Awards 2017. Depois de renovado em 2022, tanto o espaço como a ementa foram repensados para consolidar a identidade, com aposta numa cozinha de conforto de inspiração portuguesa, “jugoslava”, francesa e italiana, sob orientação do chef executivo Manuel Maldonado, acompanhada por um bar premiado e propostas criativas.
O restaurante “100 Maneiras”, no número 39 da Rua do Teixeira, surge como a continuação natural do conceito original e foi distinguido com uma estrela Michelin entre 2021 e 2023. Aberto em fevereiro de 2019 e integrado na lista 50 Best Discovery, reflete a maturidade do percurso do chef Ljubomir Stanisic e da equipa. Organizado em três salas, junta natureza e cosmopolitismo e propõe menus de degustação que expressam uma cozinha de autor marcada por viagens, experiências e identidade própria, apoiada por uma carta de vinhos com cerca de 400 referências.
O “Carnal Gastrobar”, lançado em 2021 e premiado com um Bib Gourmand pelo Guia Michelin em 2023, era apresentado como o mais irreverente dos três conceitos, ao misturar cozinha mexicana, arte e música num ambiente imersivo assinalado pela instalação de Carlito Dalceggio. Em abril de 2026, um incêndio de grandes proporções destruiu por completo o espaço, consumindo o restaurante e as obras que lhe davam identidade, o que levou à transferência temporária da operação para o Bistro 100 Maneiras, enquanto o projeto aguarda reabilitação.
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