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"Quando se veste, despe-se; quando se despe, veste-se". A árvore que tirou a memória dos marinheiros de Ulisses e encantou a corte dos Gonzaga.

Frutos frescos e secos dispostos em mesa rústica, com mão a apanhar fruta seca de taça em madeira.
Neste artigo
  1. A azufaifa, um fruto de fim de verão e outono
  2. Porque é que a árvore se “veste” no tempo quente
  3. Ulisses, os Lotófagos e um fruto envolto em mistério
  4. O “brodo di giuggiole” e a fama italiana
  5. Como escolher, comer e conservar azufaifas
  6. Compota de azufaifa: uma forma simples de aproveitar a colheita
  7. Pode plantar uma azufaifeira em Portugal?
  8. Erros comuns com azufaifas
  9. Um fruto discreto que vale a pena redescobrir

Há frutos que quase desaparecem dos mercados antes de lhes darmos atenção. A azufaifa - também conhecida por jujuba - é um deles: pequena, oval e de casca lisa, passa do verde ao castanho-avermelhado à medida que amadurece. Quando está firme, é fresca e ligeiramente ácida; mais madura e enrugada, torna-se bem mais doce, com um sabor que pode lembrar a maçã e a tâmara.

O truque para a apreciar é simples: não julgue o fruto por uma única prova demasiado verde. Experimente-o em diferentes fases de maturação, aproveite os mais maduros para secar ou fazer compota e, se tiver um quintal soalheiro, considere plantar uma azufaifeira.

A azufaifa, um fruto de fim de verão e outono

A azufaifeira comum, Ziziphus jujuba, é uma árvore de origem asiática cultivada há muitos séculos em diversas zonas mediterrânicas. Em Portugal, pode surgir em quintas antigas, hortas familiares e coleções de fruteiras tradicionais, embora seja menos comum do que a figueira, a oliveira ou a romãzeira.

O nome azufaifa é o mais usado para o fruto em Portugal. Jujuba pode também designá-lo, mas é frequentemente associado às guloseimas de gelatina. Não se trata, naturalmente, da mesma coisa.

A colheita varia consoante a região e o ano, mas ocorre geralmente entre o fim do verão e o outono. Em zonas quentes e abrigadas, os frutos podem amadurecer mais cedo; em locais interiores, com noites frias, o processo tende a ser mais lento.

Uma azufaifa ainda verde é firme e fresca; uma azufaifa castanho-avermelhada é mais doce e aromática.

Porque é que a árvore se “veste” no tempo quente

A frase do título pertence à observação popular do ciclo das árvores de folha caduca. Quando a azufaifeira ganha folhas, o tempo começa a permitir despir roupa; quando as perde, aproxima-se a altura de voltar a agasalhar-se.

Não é uma previsão meteorológica rigorosa, mas sim uma maneira antiga e prática de ler as estações. Para quem cultiva árvores de fruto, continua a ser útil observar os ritmos da rebentação, floração, formação dos frutos e queda da folha.

A azufaifeira apresenta habitualmente:

  • folhas pequenas, verdes e brilhantes durante os meses quentes;
  • ramos que podem ter espinhos;
  • flores discretas e pouco vistosas;
  • frutos que escurecem progressivamente;
  • queda da folha com a chegada do frio.

A observação não substitui os cuidados adequados, mas ajuda a perceber quando deve ajustar a rega, proteger árvores jovens ou planear uma poda ligeira.

Ulisses, os Lotófagos e um fruto envolto em mistério

Na Odisseia, Homero conta que alguns companheiros de Ulisses provam o loto dos Lotófagos e deixam de desejar o regresso a casa. Ao longo dos séculos, foram propostas várias plantas como possível identificação desse loto.

Uma das hipóteses associa-o à azufaifeira. Não existe consenso, e seria incorreto apresentar a identificação como certa. A ligação terá sobrevivido sobretudo pelo imaginário de um fruto doce, pela hospitalidade e por eventuais preparações fermentadas feitas com frutos semelhantes em diferentes regiões mediterrânicas.

Comer azufaifas frescas não provoca esquecimento nem tem efeitos extraordinários. O interesse da história está no percurso cultural de uma árvore que circulou por várias regiões e acabou associada a lendas, receitas e tradições rurais.

O “brodo di giuggiole” e a fama italiana

Em italiano, a expressão andare in brodo di giuggiole descreve um estado de grande satisfação ou entusiasmo. A expressão ficou associada a um preparado doce feito com azufaifas maduras, por vezes enriquecido com outras frutas de outono, açúcar, especiarias e álcool.

Há relatos que ligam esta preparação à região de Mântua e à corte dos Gonzaga, mas as origens exatas são discutidas. Também não há uma única receita: algumas versões incluem maçã, marmelo, uvas, romã ou citrinos.

O importante é não confundir tradição culinária com facto histórico comprovado. A associação entre azufaifas e prazer gastronómico é antiga, mas as receitas e as histórias mudaram muito de lugar para lugar.

O encanto da azufaifa não está em promessas mágicas: está em apanhá-la madura, no breve momento em que o outono a torna mais doce.

Como escolher, comer e conservar azufaifas

Escolha os frutos de acordo com o uso que lhes quer dar. Evite exemplares com bolor, cheiro fermentado desagradável, golpes profundos ou zonas húmidas.

1. Para comer ao natural

Prefira azufaifas firmes, verdes com manchas castanho-avermelhadas ou já parcialmente escuras. Lave-as em água corrente e seque-as bem antes de comer.

O caroço é duro e alongado. Não o trinque e retire-o antes de dar o fruto a crianças pequenas, devido ao risco de engasgamento.

2. Para um sabor mais intenso

Escolha frutos completamente castanho-avermelhados, ainda inteiros, ou ligeiramente enrugados. Nesta fase, a polpa tende a ser mais doce e concentrada.

3. Para secar

Disponha frutos maduros num local limpo, seco, ventilado e protegido de insetos. Se houver humidade no ar, como acontece com frequência no outono litoral, é mais seguro recorrer a um desidratador alimentar, seguindo as instruções do aparelho.

Guarde apenas frutos totalmente secos em frascos herméticos. Se aparecer condensação ou bolor, descarte o conteúdo.

Compota de azufaifa: uma forma simples de aproveitar a colheita

A azufaifa tem pouca polpa em relação ao caroço. Por isso, uma compota resulta melhor com uma quantidade generosa de frutos ou com a adição de maçã ou marmelo.

Ingredientes

  • 500 g de azufaifas maduras;
  • 1 maçã pequena, descascada, opcional;
  • 150 a 250 g de açúcar;
  • sumo de meio limão;
  • 2 a 3 colheres de sopa de água.

Preparação

  1. Lave os frutos e retire os caroços com cuidado, usando uma faca pequena.
  2. Coloque a polpa num tacho de fundo espesso com a maçã em cubos, o açúcar, o sumo de limão e a água.
  3. Cozinhe em lume brando, mexendo com regularidade, até obter uma consistência espessa.
  4. Triture a compota, se preferir uma textura mais uniforme.
  5. Deixe arrefecer e guarde em recipientes limpos no frigorífico.

O limão ajuda a equilibrar o sabor, mas não torna a compota segura para conservação indefinida à temperatura ambiente. Para evitar riscos, faça pequenas quantidades, mantenha-as refrigeradas e consuma-as em pouco tempo. Não use frascos com tampa abaulada, fugas, espuma, bolor ou cheiro anormal.

Pode plantar uma azufaifeira em Portugal?

Em muitas zonas do país, pode. A árvore aprecia exposição solar direta, tolera alguma seca depois de bem instalada e prefere solos com boa drenagem. Ainda assim, as árvores jovens beneficiam de regas regulares nos primeiros anos, sobretudo durante períodos quentes e secos.

Procure viveiros de fruteiras e peça aconselhamento sobre variedades adequadas ao clima e ao espaço disponível. Antes de plantar, tenha em conta estes cuidados:

  • escolha um local soalheiro;
  • evite terrenos onde a água fique acumulada junto às raízes;
  • deixe espaço para o desenvolvimento da copa;
  • use luvas na poda e na colheita, por causa dos espinhos;
  • retire apenas madeira seca, ramos cruzados ou ramos mal posicionados;
  • proteja exemplares jovens de geadas intensas e ventos persistentes.

Em zonas frias do interior, uma parede exposta a sul pode ajudar a criar um local mais abrigado. Ainda assim, convém confirmar se a árvore terá espaço suficiente à medida que crescer.

Erros comuns com azufaifas

O erro mais frequente é provar apenas um fruto demasiado verde e concluir que não tem sabor. A mudança entre uma azufaifa firme e outra bem madura é considerável.

Evite também:

  • confundir azufaifas frescas com rebuçados de gelatina;
  • colher sem atenção aos espinhos;
  • fechar frutos húmidos em recipientes, favorecendo bolor;
  • mastigar ou triturar os caroços;
  • consumir fruta apanhada do chão sem a verificar cuidadosamente;
  • preparar licores caseiros sem controlo adequado da higiene e da conservação.

Lave sempre os frutos, sobretudo se foram apanhados perto de estradas ou em árvores sujeitas a tratamentos fitossanitários. Se não souber que produtos foram aplicados, peça essa informação antes de consumir a fruta.

Um fruto discreto que vale a pena redescobrir

A azufaifa não precisa de competir com os frutos mais conhecidos. O seu interesse está na sazonalidade curta e na transformação do sabor: de crocante e fresco para doce, denso e quase melado.

Se encontrar azufaifas neste outono, prove algumas ao natural e reserve as mais maduras para secar ou fazer compota. E, se tiver um quintal quente e soalheiro, uma azufaifeira pode ser uma forma simples de recuperar um fruto antigo e observar, com mais atenção, os ritmos do ano.

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Inês Margarida Correia

Inês Margarida Correia é engenheira alimentar e consultora em processos de panificação e confeção em forno, com especialização em fornos tradicionais e controlo de temperatura e humidade. No sitiodoforno, partilha conhecimento sobre técnicas de cozedura, manutenção de fornos e receitas que valorizam a tradição portuguesa com rigor técnico. Interessa-se particularmente por fermentações, lenha e eficiência energética aplicada à cozinha.

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