Os ovos das aves apresentam uma enorme diversidade de formas e tamanhos, mas o modelo mais “clássico” - alongado, mais pontiagudo numa ponta e mais rombo na outra - pode ter pelo menos uma função simples e, para muitos, inesperada: encaixar melhor dentro de um corpo esguio feito para voar.
Uma equipa de cientistas chegou a esta conclusão depois de aplicar várias ferramentas de análise a dezenas de milhares de fotografias de ovos de espécies diferentes, ajudando a esclarecer um enigma que já deixava o próprio Aristóteles intrigado.
Basta uma ida ao supermercado para perceber que os ovos não são esferas perfeitas. E, se compararmos um ovo de galinha com o de uma avestruz, fica igualmente claro que nem todos os ovos têm o mesmo perfil.
O enigma da forma dos ovos desde Aristóteles
O filósofo grego Aristóteles acreditava que, se o embrião fosse fêmea, a extremidade mais afilada seria ainda mais “aguda”. A ciência avançou muito desde então, mas a pergunta mantém-se: porque é que os ovos têm a forma que têm?
Como os investigadores mediram a assimetria e a elipticidade
Para simplificar o problema, uma equipa internacional condensou a morfologia dos ovos em duas variáveis: a assimetria (a diferença entre a extremidade pontiaguda e a extremidade romba) e a elipticidade (o grau em que o ovo é longo e oval).
Com uma base de dados de 49,175 fotografias de ovos, abrangendo 1400 espécies de aves actuais e extintas, os investigadores compararam essas duas medidas ao longo da árvore evolutiva das aves. Pelo caminho, observaram com atenção factores como os comportamentos de nidificação dos progenitores, o tamanho das posturas, a alimentação e a capacidade de voo.
Desta forma, conseguiram relacionar a variedade de formas dos ovos com outras características de cada espécie, produzindo algo semelhante a um “mapa” dos ovos, como o que se segue.
Stoddard et al./Science
O que o voo tem a ver com ovos mais alongados e pontiagudos
As explicações tradicionais costumavam apontar para outras razões: que o formato comprido e afilado impediria os ovos de rolarem demasiado para longe do ninho, ou que facilitaria a sua passagem pela cloaca. Segundo este estudo, não é isso que os dados sugerem.
"Em contraste com as hipóteses clássicas, descobrimos que o voo pode influenciar a forma dos ovos. As aves que voam bem tendem a pôr ovos assimétricos ou elípticos", afirma a investigadora principal Mary Caswell Stoddard, da Universidade de Princeton.
Entre todas as características que variavam de ave para ave, a medida que descreve a forma da asa foi a que mais se alinhou com as diferenças de assimetria e elipticidade.
Em termos práticos, ter asas que tornam o voo mais eficiente e permitem deslocações mais longas - mais longe de casa - parece ser compatível com ovos mais compridos ou mais pontiagudos.
"A variação entre espécies no tamanho e na forma dos seus ovos não é simplesmente aleatória; está antes relacionada com diferenças na ecologia, sobretudo com o grau em que cada espécie está desenhada para um voo forte e aerodinâmico", diz o investigador Joseph Tobias, do Imperial College London.
Excepções, modelo físico e dúvidas em aberto
Embora o estudo não aponte uma causa única e definitiva, uma possibilidade é que tudo dependa de como as aves conseguem “arrumar” o máximo de cria possível numa forma tridimensional que, ainda assim, caiba de forma confortável dentro de um corpo elegante e aerodinâmico.
Por exemplo, apesar de os pinguins também terem ovos alongados, podem ser a excepção que confirma a regra; ainda assim, precisam de corpos hidrodinâmicos para nadar.
Os autores referem ainda que as diferenças de forma entre ovos são determinadas por pequenas variações na membrana, e não tanto na casca. Isto implica que ajustes mínimos poderiam permitir, ao longo da evolução, uma ampla gama de morfologias.
"Ao ajustar duas propriedades básicas - mudanças na espessura da membrana do ovo em função da localização e um salto de pressão através da membrana - mostramos que o nosso modelo pode produzir uma grande variedade de formas de ovos, abrangendo todo o intervalo de observações", afirma o investigador L. Mahadevan, da Universidade de Harvard.
Ainda assim, os investigadores admitem que só podem especular sobre se a forma do corpo exigida pelo voo actua directamente sobre a simetria e o alongamento do ovo, ou se existem outros factores associados.
Mantém-se também a questão de porque é que diferentes grupos de aves chegaram a soluções distintas para o “problema do ovo”: alguns optaram por ovos mais longos, outros por ovos mais pontiagudos, e outros ainda por combinar ambas as características.
Recorrer aos antepassados das aves poderá ajudar a encontrar pistas.
"A ideia de que o voo batido e os ovos pontiagudos evoluíram mais ou menos ao mesmo tempo é particularmente intrigante", diz Stoddard.
"Daqui para a frente, estamos entusiasmados por explorar como os ovos mudaram de forma durante a transição de dinossauro para ave."
Alguns dinossauros terópodes já conseguiam pôr ovos pontiagudos, ao passo que “espremer” ovos para uma forma elíptica parece ser uma adaptação que surgiu muito antes, em répteis antigos.
Investigações deste tipo costumam gerar mais perguntas do que respostas. Pelo menos, podemos agora pôr de lado a hipótese de que o formato serviria sobretudo para evitar que o ovo se transformasse numa bola descontrolada a rebolar.
Esta investigação foi publicada na Science.
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