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Extrato de ostra do Pacífico reduz a inflamação e protege a barreira intestinal

Cientista em bata branca examina tubo de ensaio com líquido amarelo em laboratório moderno.

O revestimento do intestino funciona com base num equilíbrio muito sensível. Quando a inflamação perturba esse equilíbrio, pode contribuir para problemas de saúde que vão desde a doença inflamatória intestinal até à diabetes tipo 2.

Investigadores observaram que um extrato obtido a partir de ostras do Pacífico inteiras conseguiu atenuar a inflamação em células intestinais humanas e, ao mesmo tempo, ajudou a preservar a barreira intestinal.

O resultado aponta para uma possível utilização alternativa para ostras que, de outra forma, acabariam descartadas.

Efeitos a longo prazo

A inflamação é, por norma, uma reacção natural do organismo a lesões e infecções e tende a diminuir quando a ameaça desaparece. Porém, se persistir durante meses ou anos, passa a provocar danos em vez de proteger - e uma parte importante desses danos começa no intestino.

O revestimento intestinal é composto por uma única camada de células muito juntas entre si. Esta barreira do intestino regula o que consegue passar para dentro do organismo.

Quando essa barreira perde coesão - situação muitas vezes descrita como “intestino permeável” - bactérias e toxinas podem entrar na corrente sanguínea e manter o sistema imunitário activado.

É essa activação contínua, ainda que de baixa intensidade, que os médicos designam por inflamação crónica, e que acaba por alimentar doenças muito para além do aparelho digestivo.

A alimentação é um dos factores com maior capacidade de influenciar este processo, podendo tanto promover a inflamação como travá-la.

Testar um extrato de ostra inteira

Uma equipa da Universidade de Ferrara (Unife), em Itália, quis perceber se as ostras poderiam ajudar a promover esse efeito protector.

Giulia Trinchera, estudante de doutoramento, participou no trabalho com os seus colegas. O foco recaiu sobre a ostra do Pacífico, o bivalve de água salgada mais cultivado no mundo.

Estudos anteriores já tinham sugerido que compostos presentes nas ostras poderiam reduzir a inflamação, mas não tinha sido demonstrado esse efeito nas células que revestem o intestino. Um achado em particular destacou-se.

Questionada pela Earth.com sobre o que mais a surpreendeu, Trinchera afirmou: “O que surpreendeu mais foi que o extrato completo do tecido mole da ostra, em vez de peptídeos purificados ou compostos isolados, conseguiu exercer um efeito anti-inflamatório tão consistente num modelo de epitélio intestinal.”

O efeito do extrato

Para iniciar a experiência, os investigadores utilizaram ostras adultas recolhidas no delta do rio Pó, com cerca de 85 gramas de tecido mole por exemplar.

O tecido mole foi liofilizado, triturado e depois colocado em álcool para extrair os compostos activos. Em seguida, o extrato de ostra foi aplicado a células intestinais humanas cultivadas em laboratório.

Para simular um contexto de doença, a equipa expôs as células a uma molécula que o organismo usa para activar a inflamação e observou a resposta. Numa célula inflamada, um “interruptor-mestre” costuma deslocar-se para o núcleo e activar genes relacionados com a inflamação.

Quando as células foram pré-tratadas, o extrato de ostra impediu esse interruptor de se mover e diminuiu a sua actividade em cerca de um terço na dose mais baixa e em cerca de metade na dose mais elevada.

Além disso, o extrato reduziu os níveis de uma enzima chamada COX-2, que contribui para a produção de moléculas que propagam a inflamação através dos tecidos.

Expansão dos dados sobre ostras

Um trabalho anterior tinha mostrado que uma proteína do manto da ostra era capaz de diminuir a mesma enzima em células do sistema imunitário. A nova investigação alarga esse efeito ao revestimento do intestino.

Até aqui, não tinha sido demonstrado que um extrato obtido a partir de carne de ostra inteira pudesse reduzir a inflamação em células intestinais.

“Esta é, tanto quanto sabemos, a primeira vez que se demonstra que o tecido de ostra exerce efeitos anti-inflamatórios em células intestinais”, disse Trinchera.

Manter a barreira

Uma coisa é travar os sinais químicos da inflamação; outra é manter fisicamente intacta a parede intestinal. Aqui, o extrato revelou um efeito que os investigadores não tinham observado anteriormente com tecido de ostra inteiro.

Os cientistas fizeram crescer células intestinais até formarem uma camada compacta, semelhante ao revestimento do intestino, e mediram a capacidade dessa camada resistir a fugas. A inflamação enfraqueceu essa resistência.

No entanto, quando as células foram tratadas previamente com o extrato de ostra, mantiveram uma resistência próxima do normal, apesar de sujeitas ao mesmo stress inflamatório.

A diferença também foi evidente ao microscópio electrónico. As células inflamadas apresentavam uma superfície danificada e irregular, com aberturas entre as células. Em contraste, as células que receberam a dose mais alta do extrato conservaram uma camada lisa e bem unida, com um aspecto quase inalterado.

Uma barreira intestinal robusta é crucial porque, quando se deteriora, frequentemente surgem doença inflamatória intestinal e outras perturbações gastrointestinais. O interesse do achado está em proteger a estrutura - e não apenas aliviar sintomas -, o que justifica investigações adicionais.

Sistema de defesa da ostra

As ostras têm uma combinação particularmente rica de compostos bioactivos, e a equipa quantificou vários componentes que podem ajudar a explicar o efeito observado.

O extrato mostrou um equilíbrio favorável entre gorduras ómega-3 e ómega-6 - uma proporção associada a menor inflamação -, com um teor de ómega-3 bem acima do registado em muitas outras ostras.

Foram igualmente detectados níveis elevados de ácido glutâmico, que ajuda a suprimir sinais inflamatórios, bem como polifenóis e carotenóides, antioxidantes também presentes em plantas.

Nenhum componente, por si só, foi identificado como a causa exclusiva, e os investigadores consideram provável uma acção combinada. Compostos derivados de ostras já tinham mostrado potencial semelhante noutros contextos.

Dentro do mecanismo

Num estudo, um pequeno peptídeo de ostra protegeu ratinhos de uma inflamação hepática grave, reduzindo muitos dos mesmos sinais associados ao dano.

Essas experiências recorreram a moléculas purificadas, enquanto o trabalho mais recente utilizou um extrato bruto da carne inteira. Ainda não é claro, em detalhe, de que forma o extrato bloqueia o interruptor inflamatório.

Os investigadores não conseguiram identificar o mecanismo exacto e sugerem que os compostos da ostra podem actuar de modo indirecto, activando vias protectoras dentro da célula que competem com a inflamação.

Transformar desperdício em valor

As ostras utilizadas vieram da Sacca di Goro, uma lagoa no norte de Itália que está entre as explorações aquícolas de bivalves mais activas do país.

Todos os anos, cerca de 30–40% da produção é rejeitada por as ostras serem demasiado pequenas, terem formas irregulares ou apresentarem danos que impedem a venda.

Em entrevista à Earth.com, Trinchera acrescentou: “Os nossos resultados sugerem que estas ostras, que de outra forma seriam descartadas, podem tornar-se uma fonte valiosa de ingredientes bioactivos para aplicações nutracêuticas, contribuindo para uma economia aquícola mais circular e sustentável e criando valor acrescentado a partir de recursos marinhos já existentes.”

O facto de o tecido completo funcionar sem purificações dispendiosas ajuda a manter os custos baixos. Enquanto suplemento de base alimentar, ou nutracêutico, o extrato poderá ser relativamente simples de produzir.

Para lá do laboratório

A vida marinha tem sido cada vez mais explorada precisamente para obter este tipo de compostos, com uma revisão a catalogar moléculas antioxidantes e anti-inflamatórias extraídas do mar.

Ao falar com a Earth.com, Trinchera explicou: “O nosso trabalho actual fornece uma prova de conceito, mas permanecem muitas questões sobre eficácia, segurança, dose e sobre como os compostos activos se comportam num organismo vivo.”

Antes de o extrato poder ser usado como tratamento para a inflamação, serão necessários testes em animais e, posteriormente, ensaios em humanos. Em cada fase, será avaliado se os resultados observados em laboratório se confirmam num organismo vivo.

Um extrato de carne de ostra comum, em doses que não causaram danos às células, consegue reduzir a inflamação no revestimento do intestino humano e ajudar a manter a sua barreira protectora.

Se o mesmo efeito se verificar em organismos vivos, este subproduto de bivalves descartados poderá oferecer uma forma de baixo custo para proteger a saúde intestinal - e dar às explorações de ostras um motivo para desperdiçar muito menos do que produzem.

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