Cientistas fizeram descobertas intrigantes sobre parasitas num museu de história natural acidental, instalado na despensa de uma associação. Latas de salmão há muito fora de prazo preservaram, em salmoura e folha-de-flandres, décadas de ecologia marinha do Alasca.
Os parasitas podem revelar muito sobre um ecossistema, pois interagem intimamente com várias espécies. No entanto, salvo quando provocam um problema grave para os seres humanos, têm sido, historicamente, largamente ignorados.
Isso cria dificuldades para ecologistas especializados em parasitas, como Natalie Mastick e Chelsea Wood, da Universidade de Washington, que procuravam uma forma de acompanhar retrospetivamente os efeitos dos parasitas nos mamíferos marinhos do Noroeste do Pacífico.
Um arquivo ecológico de latas de salmão
Por isso, quando Wood recebeu uma chamada da Seafood Products Association de Seattle a perguntar se aceitaria caixas de velhas latas de salmão empoeiradas e fora de validade - algumas datadas da década de 1970 -, a resposta foi inequivocamente afirmativa.
As latas tinham sido guardadas durante décadas no âmbito do controlo de qualidade da associação. Nas mãos das ecologistas, porém, transformaram-se num arquivo de espécimes extraordinariamente bem conservados - não de salmão, mas de vermes.
Veja o vídeo abaixo para um resumo da investigação:
Embora a ideia de encontrar vermes no peixe enlatado possa causar algum desconforto, estes parasitas marinhos, os anisakídeos, com cerca de 1 centímetro de comprimento, são inofensivos para os seres humanos depois de mortos pelo processo de enlatamento.
"Toda a gente assume que encontrar vermes no salmão é sinal de que algo correu mal", afirmou Wood quando o estudo foi publicado, em 2024.
"Mas o ciclo de vida dos anisakídeos integra muitos componentes da teia alimentar. Vejo a sua presença como um sinal de que o peixe no seu prato veio de um ecossistema saudável."
Como os anisakídeos circulam na teia alimentar
Os anisakídeos entram na teia alimentar ao serem consumidos pelo krill, que, por sua vez, é ingerido por espécies maiores.
É assim que os anisakídeos chegam ao salmão e, mais tarde, aos intestinos dos mamíferos marinhos, onde os vermes completam o ciclo de vida ao reproduzirem-se. Os ovos são eliminados no oceano pelo mamífero, dando início a um novo ciclo.
"Se um hospedeiro não estiver presente - os mamíferos marinhos, por exemplo -, os anisakídeos não conseguem completar o seu ciclo de vida e o seu número diminui", explicou Wood, autora sénior do artigo.
O que revelaram 178 latas de salmão
As 178 latas do "arquivo" incluíam quatro espécies diferentes de salmão, capturadas no Golfo do Alasca e na Baía de Bristol ao longo de 42 anos (1979–2021): 42 latas de salmão-keta (Oncorhynchus keta), 22 de salmão-prateado (Oncorhynchus kisutch), 62 de salmão-rosa (Oncorhynchus gorbuscha) e 52 de salmão-vermelho (Oncorhynchus nerka).
Embora os métodos utilizados para conservar o salmão não mantenham, felizmente, os vermes em condições impecáveis, as investigadoras conseguiram dissecar os filetes e calcular o número de vermes por grama de salmão.
Constataram que o número de vermes aumentou ao longo do tempo no salmão-keta e no salmão-rosa, mas não no salmão-vermelho nem no salmão-prateado.
"Observar o aumento do seu número ao longo do tempo, como verificámos no salmão-rosa e no salmão-keta, indica que estes parasitas conseguiram encontrar todos os hospedeiros certos e reproduzir-se", disse Mastick, autora principal do artigo.
"Isso poderá indicar um ecossistema estável ou em recuperação, com hospedeiros adequados em número suficiente para os anisakídeos."
Contudo, é mais difícil explicar os níveis estáveis de vermes no salmão-prateado e no salmão-vermelho, sobretudo porque o processo de enlatamento dificultou a identificação da espécie específica de anisakídeo.
"Embora estejamos confiantes na nossa identificação ao nível da família, não conseguimos identificar os [anisakídeos] detetados ao nível da espécie", escrevem os autores.
"Por conseguinte, é possível que os parasitas de uma espécie em crescimento tendam a infetar o salmão-rosa e o salmão-keta, enquanto os parasitas de uma espécie estável tendam a infetar o salmão-prateado e o salmão-vermelho."
Mastick e os seus colegas consideram que esta abordagem inédita - latas velhas e empoeiradas convertidas num arquivo ecológico - poderá impulsionar muitas outras descobertas científicas. Ao que parece, abriram uma verdadeira lata de vermes.
Esta investigação foi publicada na revista Ecology and Evolution.
Uma versão anterior deste artigo foi publicada em abril de 2024.






Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário