Colher morangos parece uma tarefa simples, mas é, na prática, um dos trabalhos mais delicados da agricultura. Se forem apanhados cedo demais, os frutos não têm sabor; se se esperar demasiado, podem ficar pisados ou deteriorar-se em poucas horas.
Investigadores desenvolveram agora uma mão robótica macia capaz de detetar, pelo toque, quando um morango está maduro e de o soltar através de uma rotação suave, sem o danificar. Assim, um desafio de timing passa a depender mais da sensibilidade tátil do que da força.
A colheita delicada recebe ajuda robótica
Em ensaios realizados em estufa, o robô envolveu morangos com os dedos, avaliou a maturação através do toque e rodou os frutos maduros até os destacar, sem danos visíveis.
Com este resultado obtido num modelo de cinco dedos, a equipa da Universidade Cornell mostrou que a firmeza pode orientar a colheita antes de um manuseamento brusco comprometer a produção.
Os morangos revelaram-se mais do que um alvo frágil: a sua curta janela de maturação permitiu que o contacto delicado do robô funcionasse, ao mesmo tempo, como teste e como ação de colheita.
Este avanço aponta para máquinas capazes de decidir quando a fruta está pronta, embora permaneça por responder a questão mais difícil: até que ponto esta avaliação poderá ser aplicada a diferentes culturas.
A maturação também traz riscos
Os morangos beneficiam da espera, mas penalizam qualquer atraso quando a doçura, a acidez e a firmeza atingem uma estreita janela ideal para consumo à medida que os frutos amadurecem.
Estudos anteriores sobre a qualidade dos morangos associaram o melhor ponto de consumo às alterações nos açúcares, nos ácidos e na textura.
Ao longo das cadeias de abastecimento de produtos agrícolas, as perdas pós-colheita - alimentos desperdiçados depois de as culturas saírem da planta - começam na colheita, no manuseamento, no armazenamento e no transporte.
Este problema de timing faz dos morangos um teste exigente para qualquer máquina que afirme ter um toque simultaneamente suave e útil, pois até poucos minutos podem fazer diferença.
Ensinar robôs a sentir
Antes deste apanhador de fruta, os investigadores já tinham demonstrado que os guias de onda óticos - percursos flexíveis que transportam luz - podiam dar aos robôs sentido de toque. Neste novo modelo, a luz percorre fibras dobráveis e a pressão altera o sinal devolvido a pequenos detetores.
A curvatura dos dedos informa o sistema sobre o aperto da mão, enquanto a pressão nas pontas dos dedos indica a firmeza do fruto.
Esta configuração permite ao robô fazer mais do que agarrar: avalia o fruto enquanto o segura, em vez de apenas o deslocar. Uma câmara minúscula na palma acrescenta outra camada de informação, registando a cor, o tamanho e a forma quando o toque, por si só, não resolve dúvidas junto das folhas.
Com iluminação controlada, o sistema classificou as formas testadas com precisão perfeita e manteve alguns erros de tamanho abaixo de 1,8 por cento.
Ainda assim, a cor pode ser enganadora, porque folhas, sombras e a pele do fruto alteram a leitura da câmara a cada instante. Nessas situações, o toque funciona como uma alternativa fiável, ajudando o robô a determinar se o fruto está realmente pronto a colher.
A pressão permite uma preensão suave
A pressão do ar curva os cinco dedos macios para dentro, permitindo que a mão se feche sobre o fruto sem recorrer a pinças rígidas de metal.
Em testes de bancada, a pinça fechou em menos de dois segundos com cerca de 83 quilopascais, e cada dedo dobrou até 240 graus, envolvendo o fruto em vez de o perfurar.
A robustez também integra o projeto: a mão consegue elevar cerca de 1 kg sem esmagar superfícies delicadas. Depois de os dedos prenderem um morango, o sistema não o puxa diretamente para baixo.
Em vez disso, o pulso roda o fruto com um mecanismo planetário compacto, que impede o enrolamento dos fios e dos tubos de ar.
Este movimento de rotação é importante porque os pedúnculos soltam-se mais facilmente quando são torcidos, reduzindo a força necessária para separar o fruto. O resultado é uma abordagem de colheita que se assemelha menos a uma remoção e mais a um manuseamento cuidadoso.
Culturas mais difíceis para robôs
Os primeiros ensaios concentraram-se em morangos vermelhos, cuja cor proporcionava uma forma simples de confirmar se os sinais táteis de maturação estavam corretos.
No entanto, nem todos os frutos são tão fáceis de interpretar. Os abacates e os papaus - frutos nativos da América do Norte, de polpa cremosa - podem continuar visualmente ambíguos mesmo quando amolecem, tornando a avaliação pela imagem menos fiável.
Nestes casos, a deteção tátil da pinça pode ajudar a identificar a curta fase em que a fruta está madura, mas ainda não é demasiado delicada para ser manuseada ou transportada.
“O problema dos papaus é que não se consegue ver quando estão maduros, e amadurecem tão depressa que, se não estivermos lá no momento certo, simplesmente perdemos a oportunidade”, afirmou o coautor do estudo Robert Shepherd, doutorado e diretor de Estudos Pós-Graduados em Engenharia Mecânica na Cornell.
Olhando para o futuro, apanhadores robóticos mais pequenos também poderão alterar o funcionamento das explorações agrícolas. Poderão permitir aos produtores gerir culturas mistas - plantando espécies diferentes em conjunto - algo que as grandes máquinas atuais têm dificuldade em fazer com eficiência.
Essa abordagem exige maior capacidade de decisão e flexibilidade, mas poderá abrir caminho a sistemas agrícolas mais diversificados e resilientes.
Porque os robôs ainda não estão prontos
As máquinas preparadas para trabalhar no terreno continuam a precisar de estruturas mais resistentes, pois as explorações agrícolas implicam contacto constante com terra, sumo, calor, chuva e impactos, época após época.
Nos testes, as fibras expostas chegaram a alterar os sinais depois de frutos demasiado maduros libertarem sumo, tornando necessária a limpeza regular ou a substituição desses componentes.
As estimativas de tamanho também perderam precisão quando sensores de distância de baixo custo enfrentaram superfícies irregulares, cores variáveis ou mudanças na luz.
Estas limitações mantêm o robô numa fase experimental, em vez de o tornarem num substituto imediato para equipas experientes de trabalhadores agrícolas.
Ainda assim, a sua colheita suave, a verificação tátil da maturação e a rotação cuidadosa sugerem um futuro diferente: um em que os robôs tratam a fruta como produto vivo, e não como carga.
Os próximos modelos terão de resistir às condições desordenadas das explorações agrícolas, mas a ideia central já oferece aos produtores uma nova forma de proteger colheitas delicadas sem prometer uma substituição imediata.
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