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Mesmo pouco álcool pode prejudicar o cérebro, sugere estudo

Taça de vinho branco sobre mesa de madeira com imagens de ressonância magnética ao fundo.

Sabemos que o consumo excessivo de álcool prejudica a saúde, mas um novo estudo indica que até uma ingestão reduzida de álcool poderá lesar o cérebro.

Uma equipa de investigadores dos Estados Unidos associou níveis mais elevados de consumo a uma menor perfusão cerebral - ou seja, fluxo sanguíneo - e a um córtex mais fino, a região do cérebro responsável pela maior parte do pensamento de nível superior.

Álcool de «baixo risco» e saúde cerebral

É importante referir que estes sinais foram identificados em pessoas que não ultrapassavam 60 bebidas por mês, no caso dos homens, ou 30 por mês, no das mulheres. Neste contexto, uma bebida corresponde a 14 gramas de etanol puro: aproximadamente uma garrafa de cerveja, um copo pequeno de vinho ou uma dose de bebidas espirituosas.

Manter o consumo abaixo destes valores tem sido uma recomendação frequente, embora as mais recentes orientações alimentares dos EUA já não estabeleçam um limite diário considerado seguro.

Além disso, os investigadores encontraram uma correlação entre o consumo de álcool, a idade e as medições do fluxo sanguíneo e da espessura da camada exterior do cérebro, o córtex.

Os resultados sugerem que os efeitos de até uma bebida ocasional podem acumular-se ao longo do tempo.

«O consumo de álcool considerado de “baixo risco” pode ter consequências para a integridade do tecido cortical, sobretudo com o avançar da idade», escrevem os investigadores no artigo publicado.

«Estes resultados podem ter implicações para as atuais estratégias de redução de danos e para as orientações de saúde pública relativas ao consumo de álcool.»

Estudo relaciona consumo de álcool, perfusão e córtex

O estudo incluiu 45 adultos saudáveis, com idades entre os 22 e os 70 anos, sem historial de perturbação relacionada com o consumo de álcool nem episódios de consumo excessivo no último ano.

Foram questionados sobre os seus hábitos de consumo durante o ano anterior, os três anos anteriores e ao longo da vida.

Considerando todos os participantes, o consumo médio de álcool ao longo da vida foi de 21 bebidas mensais. Na amostra, os valores variaram entre 1 e 54 bebidas por mês.

As informações obtidas nas respostas foram comparadas com exames de ressonância magnética que mediam o volume e a espessura corticais, bem como com dados de perfusão cerebral, disponíveis para 27 participantes. Estes testes foram realizados apenas uma vez; os voluntários não foram acompanhados ao longo do tempo.

Embora a espessura cortical estivesse associada aos níveis de consumo, a relação revelou-se mais forte no caso da perfusão cerebral. Isto aponta para a possibilidade de o álcool ter um impacto maior no fluxo sanguíneo, o que, por sua vez, pode colocar o tecido cerebral em risco de lesão.

Tal como acontece no resto do organismo, uma circulação eficiente no cérebro é essencial para levar oxigénio e nutrientes aos locais necessários e para eliminar resíduos.

«Considerados em conjunto, os resultados podem refletir os efeitos cumulativos do consumo reduzido de álcool ao longo da vida, que interagiu com a idade para promover diminuições sinérgicas na perfusão e na espessura cortical», escrevem os investigadores.

Limitações e implicações para as recomendações de saúde

Apesar de o estudo não investigar as razões desta associação, já se conhecem muitos dos efeitos do álcool. Os investigadores sugerem que o stress oxidativo - o desgaste biológico para o qual o álcool pode contribuir - será provavelmente um dos fatores fundamentais neste caso.

Há algumas limitações a ter em conta. O estudo não demonstra uma relação direta de causa e efeito, em parte por retratar apenas um momento no tempo. Além disso, os hábitos de consumo foram comunicados pelos próprios participantes, pelo que poderão não ser totalmente rigorosos, e não foram considerados fatores como a alimentação e o exercício físico.

Mesmo tendo estas limitações presentes, os resultados são relevantes e enquadram-se numa tendência crescente na investigação em saúde. Vários estudos estão agora a pôr em causa a ideia de que existe um nível de consumo de álcool «seguro» do ponto de vista da saúde.

De facto, as mais recentes orientações alimentares oficiais de saúde dos EUA, atualizadas no início deste ano, deixam de indicar uma quantidade específica de álcool abaixo da qual as pessoas devem permanecer. Em vez disso, afirmam que as pessoas devem «consumir menos álcool para uma melhor saúde geral».

Com este novo estudo e as conclusões publicadas anteriormente, talvez seja altura de repensar quão ocasionais se pretende que sejam essas bebidas ocasionais.

Os investigadores concluem que é necessária mais investigação «para compreender melhor as repercussões neurobiológicas funcionais do consumo de álcool de “baixo risco” em adultos».

A investigação foi publicada na revista Alcohol.

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