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Os alimentos ultraprocessados não são todos iguais

Pessoa a cortar ervas frescas junto a alimentos embalados numa bancada de cozinha iluminada.
Neste artigo
  1. Uma só categoria esconde as diferenças
  2. Os alimentos processados não são todos iguais
  3. Os alimentos ultraprocessados de origem vegetal têm melhor desempenho
  4. Propostas de novas regras
  5. Políticas orientadas pela ciência
  6. A mudança na conversa sobre alimentos ultraprocessados
  7. Uma abordagem mais cuidadosa

Durante anos, as pessoas ouviram o mesmo conselho sobre alimentação: os alimentos integrais são saudáveis e os alimentos processados são pouco saudáveis.

A mensagem parece simples e fácil de seguir. Fruta e legumes frescos são bons. Alimentos embalados são maus.

No entanto, os cientistas estão agora a perceber que a realidade é muito mais complexa.

Novas investigações indicam que nem todos os alimentos ultraprocessados afetam o organismo da mesma forma. Alguns estão claramente associados a problemas de saúde, enquanto outros podem, na verdade, contribuir para uma alimentação saudável.

Por esse motivo, investigadores e especialistas em saúde estão a começar a reconsiderar a forma como estes alimentos devem ser avaliados.

Uma só categoria esconde as diferenças

A expressão «alimento ultraprocessado» resulta de um sistema denominado NOVA. Este descreve alimentos produzidos com ingredientes industriais, aditivos ou processos que não são habitualmente utilizados na cozinha doméstica.

O problema é que esta categoria reúne uma enorme variedade de alimentos. Refrigerantes, cachorros-quentes, bolachas embaladas, pão integral, cereais de pequeno-almoço, barras de proteína e hambúrgueres de origem vegetal podem todos ser classificados como alimentos ultraprocessados.

Isto gera confusão, pois estes alimentos são muito diferentes entre si.

Os alimentos processados não são todos iguais

Os investigadores começaram a analisar grupos mais específicos de alimentos ultraprocessados, em vez de os tratarem todos da mesma maneira. Quando o fizeram, surgiram padrões importantes.

Os estudos concluíram que as bebidas açucaradas e as carnes processadas, como bacon, cachorros-quentes e carnes frias fatiadas, estão associadas a riscos mais elevados de doença cardíaca e diabetes tipo 2.

Em simultâneo, alguns alimentos incluídos na mesma categoria de ultraprocessados, como pães integrais e determinados cereais, foram associados a menores riscos para a saúde.

Isto sugere que o processamento, por si só, poderá não determinar se um alimento é saudável ou pouco saudável.

Os alimentos ultraprocessados de origem vegetal têm melhor desempenho

Há uma tendência que continua a surgir na investigação. Os alimentos ultraprocessados de origem vegetal parecem, muitas vezes, ser mais saudáveis do que os alimentos ultraprocessados de origem animal.

Alimentos como pão integral, cereais enriquecidos e algumas alternativas à carne de origem vegetal apresentam geralmente melhores resultados nos estudos do que as carnes processadas.

As bebidas açucaradas continuam a ser uma das maiores preocupações.

«Muitas pessoas foram aconselhadas a evitar os alimentos processados, mas a ciência está a dizer-nos claramente que precisamos de ser mais ponderados», afirmou Noah Praamsma, dietista registado do Physicians Committee for Responsible Medicine.

«As carnes processadas, como bacon, cachorros-quentes e carnes frias fatiadas, devem absolutamente ser evitadas, mas muitos alimentos de origem vegetal considerados ultraprocessados, como pães, cereais e alternativas à carne, são na realidade bons para a saúde.»

Propostas de novas regras

Um relatório recente da Healthy Eating Research afirma que as políticas de nutrição devem estar mais alinhadas com a ciência.

O grupo sugeriu que alguns alimentos ultraprocessados não devem receber o mesmo tratamento que produtos pouco saudáveis, como refrigerantes ou carne processada.

Os alimentos com nutrientes úteis e menores quantidades de açúcar, sódio e gordura saturada poderiam ser tratados de forma diferente.

A ideia passa por distinguir os alimentos embalados mais saudáveis dos produtos fortemente associados a doenças.

Políticas orientadas pela ciência

O governo dos Estados Unidos está atualmente a desenvolver uma definição oficial de alimentos ultraprocessados. Essa definição poderá influenciar os almoços escolares, os rótulos dos alimentos, os impostos e as regras de publicidade.

Uma definição demasiado abrangente poderá colocar cereais saudáveis e hambúrgueres de origem vegetal na mesma categoria das bebidas açucaradas e dos cachorros-quentes.

«Precisamos de políticas orientadas pela ciência, e não pela ideologia, que sejam suficientemente sólidas para promover efetivamente alimentos benéficos e desencorajar alimentos pouco saudáveis», disse Praamsma.

A mudança na conversa sobre alimentos ultraprocessados

As principais organizações de saúde também estão a alterar a forma como abordam os alimentos ultraprocessados.

Em 2025, a American Heart Association declarou que nem todos os alimentos ultraprocessados são pouco saudáveis e que alguns podem integrar uma alimentação equilibrada.

Uma declaração desse género teria sido invulgar há alguns anos.

Os conselhos nutricionais tornam-se frequentemente populares por serem fáceis de memorizar. «Evite alimentos processados» é um desses exemplos. Contudo, um conselho simples nem sempre corresponde à ciência real.

Uma fatia de pão integral e um cachorro-quente podem ambos ser considerados alimentos ultraprocessados, mas não parecem afetar o organismo da mesma forma.

Tratá-los como equivalentes pode confundir os consumidores e tornar os conselhos nutricionais menos úteis.

Uma abordagem mais cuidadosa

Os investigadores procuram agora ir além dos rótulos simples. Em vez de perguntarem apenas como um alimento é processado, também questionam quais os nutrientes que contém e de que forma afeta a saúde a longo prazo.

Esta abordagem pode não caber num slogan curto, mas os cientistas acreditam que poderá conduzir a melhores recomendações nutricionais no futuro.

O crescente volume de investigação sobre alimentos ultraprocessados demonstra que a questão não é tão simples como «processado é mau».

Alguns alimentos processados podem continuar a ter lugar numa alimentação saudável, enquanto outros permanecem uma preocupação importante.

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Inês Margarida Correia

Inês Margarida Correia é engenheira alimentar e consultora em processos de panificação e confeção em forno, com especialização em fornos tradicionais e controlo de temperatura e humidade. No sitiodoforno, partilha conhecimento sobre técnicas de cozedura, manutenção de fornos e receitas que valorizam a tradição portuguesa com rigor técnico. Interessa-se particularmente por fermentações, lenha e eficiência energética aplicada à cozinha.

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