Uma dupla vaga de frio no final de março abalou as vinhas da Borgonha - mas o verdadeiro teste só chegará depois da Páscoa.
Após duas noites de geada no final de março, os viticultores da Côte-d’Or respiram com prudência. As imagens da catástrofe provocada pela geada em 2021 continuam bem presentes, quando colheitas inteiras se perderam. Desta vez, o cenário parece menos dramático, mas ninguém baixa a guarda. Com as temperaturas mais amenas em torno da Páscoa, cresce outro fator de risco, igualmente traiçoeiro.
Noites de geada em março: não foram um desastre, mas deixaram um sério aviso
Nas noites de 27 e 28 de março, os termómetros desceram bem abaixo dos zero graus na região da Borgonha. Nas vinhas da Côte-d’Or, o balanço é agora desigual: há danos, mas dificilmente perdas totais.
As videiras de Chardonnay foram as mais afetadas. Como costumam rebentar mais cedo na primavera do que as de Pinot noir, ficam mais expostas às geadas tardias. Muitas explorações comunicam a existência de cepas danificadas e gomos atingidos, embora seja raro que mais de metade dos rebentos de uma parcela tenha sido afetada.
A situação é séria, mas está longe de ser um incêndio generalizado: trata-se de um revés, não do fim de uma vindima.
Para os viticultores, esta diferença é determinante. Depois de 2021, quando vinhas inteiras da Borgonha pareciam queimadas pela geada, evitar uma morte generalizada dos gomos já representa um pequeno alívio. Ainda assim, a vindima de 2024 mantém-se fragilizada, pois os efeitos da vaga de frio só se revelarão gradualmente.
Porque é que a Borgonha escapou melhor do que outras regiões
Face a zonas como Chablis ou Champagne, a Côte-d’Or teve um pouco mais de sorte desta vez. Nesses territórios, as temperaturas baixaram ainda mais e os estragos já são visivelmente maiores. Na Borgonha, a geada atingiu as vinhas, mas não com a mesma intensidade.
Também importa o tipo de geada. Meteorologistas e consultores de viticultura distinguem duas situações:
- geada advectiva: massas de ar muito frio entram na região e fazem descer a temperatura de forma generalizada;
- geada radiativa: durante a noite, o calor dissipa-se e o ar arrefece sobretudo nas zonas baixas.
O perigo aumenta quando ambas as formas surgem em sequência. Foi precisamente essa a ameaça no final de março. Em partes da Côte-d’Or, a topografia, a circulação do ar e os solos já ligeiramente aquecidos ajudaram a evitar o pior. Ainda assim, o episódio volta a demonstrar que a videira tolera muito, mas não todas as surpresas logo após o fim do inverno.
Zonas particularmente vulneráveis: onde os viticultores analisam agora cada cepa
Os primeiros sintomas mais evidentes surgem sobretudo nas áreas já conhecidas pela sua sensibilidade. Entre elas estão Châtillonnais, Hautes Côtes e a zona em redor de Nolay. Nestes locais, vários fatores jogaram contra as videiras.
Nas parcelas mais altas, a neve de 26 de março intensificou o efeito do frio. Em Nolay, caíram cerca de 4 milímetros de chuva antes da primeira noite de geada - o suficiente para humedecer os gomos. A presença de humidade nos rebentos aumenta o risco, porque os gomos molhados congelam mais depressa.
Em parcelas com fraca ventilação, muitos gomos apresentam agora uma coloração ferrugenta. O aspeto é preocupante, mas ainda não constitui uma sentença definitiva. Ao abrir estes gomos, encontram-se frequentemente, a par de exemplares completamente secos, estruturas internas ainda verdes e viáveis.
A noite de geada foi apenas a primeira parte da prova. O verdadeiro estado das videiras só se revela muitas vezes semanas mais tarde, ao cortar os gomos.
Nos próximos dias e semanas, viticultores e técnicos irão examinar cada parcela. Só então será possível estimar, ainda que de forma aproximada, quanto rendimento está realmente em risco.
A Páscoa traz calor - e um novo risco para a vindima
A geada travou quase por completo o desenvolvimento das videiras durante cerca de dez dias. Agora, as previsões apontam para uma subida acentuada das temperaturas: uma média próxima dos 15 graus e máximas diurnas em redor dos 23 graus. Para as videiras, será como carregar no acelerador.
Com a chegada dos dias mais amenos, os rebentos podem crescer subitamente a grande velocidade. Os chamados estádios fenológicos - desde o abrolhamento até ao aparecimento das primeiras folhas - avançam depressa num curto espaço de tempo. É precisamente nessa fase que a vulnerabilidade das plantas aumenta. Quanto mais adiantada estiver uma videira no abrolhamento, mais sensível será a uma nova noite de geada.
A grande preocupação é que uma nova entrada de frio após a Páscoa possa causar danos muito mais graves do que as noites de março. Nessa altura, haverá rebentos jovens e frágeis nas linhas de vinha, praticamente sem proteção. Mesmo períodos breves de geada, de apenas algumas horas, podem bastar para queimar esta vegetação recente.
O que os viticultores acompanham hora a hora
Para as explorações da Côte-d’Or, começa agora um período de vigilância contínua. A atenção concentra-se em várias questões:
- Os gomos danificados voltam a desenvolver-se ou permanecem mortos?
- A que ritmo evolui a vegetação nas parcelas mais precoces?
- As previsões indicam outras noites com temperaturas críticas?
Os viticultores acompanham em especial as parcelas de maturação precoce em partes da Côte de Beaune e da Côte de Nuits. Estas áreas estão frequentemente entre as melhores localizações na época da colheita, mas na primavera são também as que enfrentam maior risco. Rebentam mais cedo e entram, por isso, mais rapidamente na zona de perigo das geadas tardias.
A aplicação meteorológica deixou há muito de ser um brinquedo de lazer na viticultura e passou a ser um fator de rendimento - cada noite pode tornar-se um ponto de viragem.
As consequências vão muito além do conforto pessoal. A evolução das temperaturas nas próximas semanas determinará se a vindima será escassa, satisfatória ou, no pior dos casos, novamente catastrófica.
Filagem: o discreto destruidor de rendimento após períodos prolongados de frio
Além dos danos de geada visíveis, os especialistas estão preocupados com outro fenómeno: a chamada filagem. Por detrás deste termo pouco intuitivo encontra-se um processo insidioso. Períodos prolongados de frio durante uma fase delicada do desenvolvimento perturbam a formação das inflorescências.
As inflorescências, ou seja, as futuras estruturas dos cachos, desenvolvem-se de forma irregular, “formam fios” ou ficam parcialmente atrasadas. Daí resulta um menor número de cachos por cepa e, por vezes, pesos distribuídos de forma menos homogénea na parcela.
Segundo estimativas de fisiologistas vegetais, cerca de 40 por cento do rendimento futuro é definido entre o abrolhamento e a fase em que as primeiras folhas se expandem. Se ocorrer um período prolongado de frio precisamente nesta janela, a videira só costuma pagar a fatura meses mais tarde - durante a vindima.
| Fase ao longo do ano | Influência do frio |
|---|---|
| Abrolhamento até às primeiras folhas | forte efeito na formação do rendimento, risco de filagem |
| Floração | risco de desavinho, menos bagos por cacho |
| Início da maturação | influência na formação de açúcar e no equilíbrio da acidez |
Para os consumidores, a filagem quase não é percetível enquanto chegarem garrafas suficientes ao comércio. Para as explorações, porém, uma perda invisível de 10 ou 20 por cento por hectare pode marcar a diferença entre um ano económico sólido e um ano difícil.
Ovos da Páscoa no jardim, sensores de geada na vinha
Enquanto muitas famílias pensam em ovos coloridos e assado de borrego durante os feriados, os viticultores da Borgonha contam gomos e analisam mapas de previsão. O contraste é evidente: ambiente festivo no vale, silêncio tenso nas encostas.
No quotidiano das explorações, a rotina decorre agora sob um estado de alerta latente. Inspecionar cepas, atar troncos, ajustar arames - e manter permanentemente um olho nos sensores de temperatura e nos avisos meteorológicos. Nada disto parece particularmente espetacular. Porém, é nestes dias aparentemente banais que se decide muito da qualidade e da quantidade da próxima vindima.
O que os apreciadores de vinho devem saber sobre os danos de geada
Para os consumidores, coloca-se a questão: o que significam estes episódios de geada para o vinho no copo? Há três aspetos especialmente importantes:
- Quantidade: consoante a dimensão dos danos, o número de garrafas disponíveis pode diminuir e determinadas parcelas podem tornar-se mais escassas.
- Preço: um rendimento menor perante uma procura elevada pode fazer subir os preços - não obrigatoriamente, mas acontece com frequência.
- Estilo: em alguns anos, rendimentos reduzidos dão origem a vinhos mais concentrados; noutros, a harmonia e o equilíbrio sofrem.
Assim, a geada não é apenas inimiga da qualidade, mas antes um fator imprevisível. Algumas vindimas lendárias nasceram apesar de primaveras difíceis, enquanto outras foram fortemente afetadas por geadas tardias e longos períodos de frio.
Prevenção, adaptação - e o papel das alterações climáticas
A longo prazo, os viticultores da Borgonha enfrentam uma questão estratégica: como proteger as videiras sem levar o esforço a níveis incomportáveis? Velas de parafina, fios de aquecimento, máquinas de vento ou sistemas de aspersão podem ajudar, mas exigem muito dinheiro e energia. Nem todas as explorações podem, ou desejam, aplicar estes meios em toda a sua área.
Acrescem as alterações climáticas: invernos mais suaves e primaveras antecipadas aceleram o desenvolvimento das videiras. Os gomos surgem mais cedo, enquanto o risco de geadas tardias pouco diminui no calendário. É esta combinação que agrava a situação. Por isso, algumas explorações experimentam podas mais tardias, outros porta-enxertos ou paredes foliares adaptadas para atrasar ligeiramente o abrolhamento.
Nas próximas semanas, a situação na Côte-d’Or continuará tensa. Os viticultores encontram-se entre o alívio e a preocupação: a geada de março não atingiu as vinhas como em 2021, mas a primavera ainda vai longa. E, na Borgonha, todos sabem que uma vindima pode mudar numa única noite.
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