Chegam as primeiras chuvas de outubro, as hortênsias perdem a cor e as flores secas ficam penduradas em hastes castanhas. Para muitos, é o sinal para ir buscar a tesoura e "pôr o jardim em ordem" antes do inverno. O problema é que, em muitas hortênsias, esse corte bem-intencionado leva consigo as flores do próximo ano.
Os botões cortados não voltam a formar-se a tempo. A planta rebenta na primavera e enche-se de folhas verdes e saudáveis, mas chega o verão e as grandes bolas azuis, cor-de-rosa ou brancas aparecem em muito menor número, ou nem aparecem. Saber que hortênsia tem no quintal ou na varanda é o que separa um arbusto cheio de flores de um arbusto só com folhas.
Porque é que a poda de outono pode deixar a hortênsia sem flores
Algumas hortênsias formam os botões florais nos ramos do ano anterior, a chamada "madeira velha". Outras florescem nos rebentos novos que crescem nessa mesma primavera.
Nas hortênsias que florescem em madeira velha, os gomos que vão dar flor no ano seguinte formam-se no final do verão e durante o outono, nas pontas e na parte superior dos ramos. Quando se encurtam esses ramos em outubro ou novembro, cortam-se precisamente esses gomos.
Uma hortênsia podada no outono pode rebentar com toda a força na primavera e, mesmo assim, dar pouquíssimas flores: a maior parte dos botões foi para o lixo com os restos da poda.
A hortênsia clássica portuguesa é a mais sensível
As hortênsias que enchem os jardins do Minho, as sebes dos Açores e tantos canteiros e vasos pelo país fora são, quase sempre, Hydrangea macrophylla. São as de folha larga e brilhante, com flores em grandes bolas (as chamadas hortênsias de bola) ou em forma de prato achatado, com um centro de florinhas pequenas rodeado por flores maiores (hortênsias de prato).
É exatamente este grupo que floresce em madeira velha. O mesmo acontece com a Hydrangea serrata, mais pequena e delicada, por vezes vendida como "hortênsia da montanha".
Nestas plantas, o outono é a pior altura para encurtar ramos:
- Os botões florais do próximo ano já estão formados ou a formar-se.
- Um corte radical remove grande parte da floração da primavera e do verão seguintes.
- Os ramos com cortes frescos ficam mais vulneráveis ao frio e à humidade do inverno.
Como identificar o tipo de hortênsia que tem
Antes de qualquer corte, observe a planta. Há sinais que ajudam bastante:
1. Olhe para a forma das flores
- Bolas grandes e redondas ou pratos achatados, em azul, cor-de-rosa, lilás ou branco: muito provavelmente macrophylla. Floresce em madeira velha.
- Flores em cone alongado, brancas, que passam a rosadas ou esverdeadas com o tempo: Hydrangea paniculata. Floresce em madeira nova.
- Grandes bolas brancas ou verde-claras em hastes finas, como a conhecida variedade 'Annabelle': Hydrangea arborescens. Também floresce em madeira nova.
2. Repare nas folhas
- Folhas recortadas, parecidas com as do carvalho, que ficam avermelhadas no outono: Hydrangea quercifolia, que quase não precisa de poda.
- Folhas grandes, grossas e brilhantes: macrophylla.
3. Procure a etiqueta ou o nome da variedade
Se comprou a planta num viveiro ou numa loja de jardinagem, a etiqueta indica normalmente a espécie. Algumas variedades modernas de macrophylla são remontantes, ou seja, florescem tanto em madeira velha como em madeira nova. Mesmo nessas, um corte forte no outono elimina a primeira vaga de flores, a mais precoce.
O que fazer com cada tipo de hortênsia neste outono
A boa notícia é que, para quase todas as hortênsias, a regra de outono é a mesma: pouco ou nada de tesoura.
- Hortênsia comum (macrophylla) e serrata: não encurte os ramos. Deixe as flores secas na planta até ao fim do inverno.
- Remontantes: também não convém podá-las agora. Se for preciso, retire apenas partes mortas quando a planta começar a rebentar.
- Hortênsia de folha de carvalho: precisa de poda mínima. Na primavera, retire só ramos mortos ou partidos; se quiser corrigir a forma, faça-o no verão, logo a seguir à floração.
- Paniculata e arborescens ('Annabelle'): embora floresçam em madeira nova, a poda principal faz-se no fim do inverno ou no início da primavera, antes do rebentamento, e não em outubro.
- Hortênsia trepadeira: se for preciso encurtar ramos, faça-o logo a seguir à floração, no verão.
Porque deve deixar as flores secas na planta
Segundo a Royal Horticultural Society, as cabeças florais das hortênsias de bola devem manter-se no inverno porque ajudam a proteger do frio os gomos que estão logo por baixo.
As flores secas não são lixo: funcionam como uma pequena manta sobre os botões das flores do próximo ano, protegendo-os das geadas.
Além disso, ganham tons de bronze, verde-velho e vinho que dão interesse ao jardim nos meses mais cinzentos.
Se preferir, nas hortênsias de prato pode retirar apenas a flor murcha, cortando logo abaixo dela, sem descer pelo ramo nem tocar nos gomos grossos que já se veem.
O que pode (e deve) fazer agora no outono
Deixar a tesoura de lado não significa abandonar a planta:
- Retirar o que está morto ou doente: ramos partidos, secos ou doentes podem ser cortados até à parte saudável. Depois de cortar ramos doentes, desinfete a lâmina (por exemplo, com álcool) antes de passar a outro ramo e não use esses restos na cobertura nem no composto.
- Cobrir a base: casca de pinheiro, folhas secas ou composto bem curtido protegem as raízes do frio. Deixe alguns centímetros livres junto ao tronco.
- Vigiar a rega nos vasos: com as chuvas de outono, o problema costuma ser o excesso de água. Confirme que o vaso drena bem e retire a água acumulada no prato.
- Proteger os vasos nas zonas mais frias: no interior Norte e Centro, onde as geadas são mais frequentes, aproxime os vasos de uma parede abrigada ou coloque-os sobre um suporte, para não ficarem em contacto com o chão gelado.
Na faixa litoral, nos Açores e na Madeira, onde os invernos são mais suaves, as hortênsias costumam atravessar o inverno sem grandes cuidados extra. Mesmo aí, a regra da poda mantém-se.
Quando é a altura certa para podar
Para a hortênsia comum, a altura de mexer nas flores secas é o fim do inverno ou o início da primavera, quando os gomos começam a inchar. Corte cada flor murcha logo acima do primeiro par de gomos fortes e, em plantas velhas e densas, retire pela base um ou dois dos ramos mais antigos.
Não encurte todos os ramos por igual "para ficar arrumado": quanto menos cortar nos ramos saudáveis, mais flores terá.
No caso das paniculata e arborescens, a poda de fim de inverno pode ser mais forte: encurtar os ramos do ano anterior até um par de gomos saudáveis dá rebentos vigorosos e flores maiores; uma poda ligeira deixa um arbusto maior, com mais flores, mas normalmente mais pequenas.
Erros comuns que deve evitar
- Podar "para arrumar" antes do inverno: é o erro mais caro, porque não tem remédio até ao ano seguinte.
- Tratar todas as hortênsias da mesma maneira: a 'Annabelle' do vizinho aguenta uma poda forte; a hortênsia azul da avó não.
- Cortar as flores secas demasiado abaixo: ao descer pelo ramo, leva os gomos florais.
- Adubar com força no outono: estimula rebentos tenros que o frio pode queimar. Guarde a adubação para a primavera.
- Usar tesouras sujas ou rombas: cortes esmagados cicatrizam mal. Limpe e afie a tesoura antes de começar.
- Deixar restos de poda ao alcance de crianças e animais: as folhas e flores da hortênsia são tóxicas se ingeridas, por isso recolha os restos e mantenha-os longe de crianças, cães e gatos. Use luvas, porque a seiva pode irritar peles sensíveis.
Se tiver dúvidas, não corte
Quando não sabe que hortênsia tem, a decisão mais segura é deixá-la como está até à primavera. As flores secas não fazem mal nenhum e, quando o tempo aquecer, verá facilmente que ramos estão vivos e onde acordam os botões.
Por isso, este outono, limite-se a retirar o que está partido ou morto, cubra a base com uma boa camada de folhas ou casca e guarde a tesoura na gaveta. No próximo verão, as flores vão agradecer.






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