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O que acontece ao corpo quando deixa de consumir cafeína

Jovem sentado à mesa da cozinha a espreguiçar-se junto a uma chávena de chá quente e um frasco de café.
Neste artigo
  1. Funcionamento do cérebro
  2. Saúde cardiovascular
  3. Um sorriso mais brilhante
  4. Menos idas à casa de banho
  5. Consumo moderado

A cafeína é a substância psicoactiva mais consumida no mundo. Mesmo que não beba café nem chá, é provável que consuma cafeína com regularidade, uma vez que está presente em produtos tão diversos como refrigerantes com gás, medicamentos para constipações, café descafeinado e chocolate.

Depois de ingerida, a cafeína é absorvida rapidamente pelo organismo, atingindo o efeito máximo em duas horas, embora possa demorar até nove horas a ser eliminada.

Como é solúvel tanto em água como em gordura, chega a todos os tecidos do corpo, o que ajuda a explicar por que razão consegue afectar tantas zonas diferentes do organismo.

A recomendação é que os adultos não ultrapassem os 400mg de cafeína por dia, o equivalente a cerca de quatro chávenas de café. Acima deste valor, podem surgir tremores musculares, náuseas, dores de cabeça, palpitações e, em situações extremas, morte.

Contudo, até quem bebe apenas duas chávenas de café ou chá por dia pode sentir efeitos indesejáveis, como irritabilidade, dificuldade em adormecer e nervosismo. É por isso que um número crescente de pessoas opta por abandonar a cafeína.

Se está a pensar deixar a cafeína e quer saber que benefícios poderá ter, eis o que indica a investigação.

Funcionamento do cérebro

A abstinência de cafeína pode provocar dores de cabeça, fadiga e cansaço, pois o organismo desenvolve tolerância a esta substância.

A cafeína liga-se a receptores cerebrais normalmente utilizados pela adenosina. Ao ocupar esses receptores, leva o organismo a adiar o aparecimento da fadiga. Com o passar do tempo, porém, as células do cérebro criam mais receptores de adenosina para que a ligação normal desta substância continue a ocorrer.

Assim, quando deixa de consumir cafeína, existem receptores de adenosina em excesso disponíveis para ligação. Isto permite que a fadiga e o cansaço surjam normalmente, fazendo com que a pessoa se sinta mais cansada do que antes.

As dores de cabeça resultam da ausência de cafeína. Na cabeça e no pescoço, esta substância estreita os vasos sanguíneos, reduzindo o fluxo de sangue para o cérebro.

Ao deixar de beber cafeína, cerca de 24 horas depois os vasos sanguíneos regressam ao seu estado normal. Isto aumenta o fluxo sanguíneo para o cérebro e pode desencadear dores de cabeça, que duram, em média, até 9 dias.

Além disso, como a cafeína se liga aos receptores de adenosina, que também regulam a dor, deixar de a consumir pode aumentar temporariamente a percepção e a sensibilidade à dor, por haver mais receptores disponíveis.

A cafeína só afecta verdadeiramente o sono quando é consumida ao fim da tarde ou à noite. Isto acontece porque atrasa em 40 minutos a libertação de melatonina, a hormona que nos dá sono. Também diminui o tempo total de sono e encurta a fase de sono profundo.

Este efeito pode aumentar o cansaço no dia seguinte, criando um ciclo em que se recorre à cafeína para acordar, mas se tem dificuldade em dormir mais tarde devido à sua ingestão. Ao deixar a cafeína, poderá notar melhorias no sono. Há indícios de que essas melhorias podem surgir em apenas 12 horas.

A cafeína também tem sido associada a um aumento da ansiedade e dos ataques de pânico, não apenas em pessoas com predisposição para problemas de saúde mental.

Reduzir ou eliminar a cafeína pode melhorar o humor, em parte porque contribui para dormir melhor. A privação de sono pode agravar a ansiedade e outras perturbações do humor.

Porém, os receptores de adenosina aos quais a cafeína se liga participam igualmente na regulação de outros neurotransmissores envolvidos no stress, na felicidade e no medo.

Saúde cardiovascular

Diminuir ou eliminar a cafeína também pode aliviar a azia e a indigestão. A cafeína estimula a secreção de ácido no estômago e enfraquece o esfíncter esofágico, que controla o refluxo do conteúdo do estômago para o esófago, desencadeando azia e indigestão.

Deixar a cafeína pode ainda baixar a pressão arterial e reduzir a frequência cardíaca, embora outros estudos tenham encontrado poucas alterações.

Isto deve-se ao facto de que, quando uma pessoa consome cafeína diariamente durante muitos anos, o corpo se adapta à exposição. Os seus efeitos estimulantes sobre o sistema nervoso, os intestinos e o coração passam a ser a nova norma.

Parece também existir uma componente genética na tolerância e no metabolismo da cafeína. Isto poderá significar que algumas pessoas são mais afectadas pela cafeína do que outras, embora sejam necessários mais estudos sobre esta relação.

Um sorriso mais brilhante

Eliminar a cafeína pode tornar os dentes mais brancos, não devido à cafeína em si, mas porque o chá e o café contêm compostos, incluindo taninos, que mancham os dentes.

O açúcar das bebidas energéticas também pode prejudicar os dentes, pelo que deixar estas bebidas pode ajudar a protegê-los. Existem ainda indícios de que as bebidas com cafeína podem reduzir a quantidade de saliva produzida, que normalmente protege os dentes contra danos.

Depois de deixar a cafeína, poderá também sentir uma maior sensibilidade ao sabor de alimentos e bebidas doces, já que a cafeína interfere na percepção de substâncias doces.

Menos idas à casa de banho

A cafeína actua sobre o músculo liso dos intestinos, sobretudo no cólon, fazendo-o contrair e provocando vontade de defecar. Pode igualmente alterar a consistência das fezes, especialmente quando é consumida em excesso, pois afecta a absorção de água.

Ao reduzir a ingestão de cafeína, a vontade de defecar poderá surgir menos vezes e a consistência das fezes também poderá mudar.

A cafeína funciona ainda como um diurético ligeiro, aumentando a produção de urina. Isto acontece porque se liga aos receptores de adenosina nos rins, alterando a forma como o sódio é trocado e afectando a retenção de água. Há igualmente evidência de que a cafeína irrita a bexiga, podendo causar uma vontade mais frequente de urinar. Deixar a cafeína pode reduzir as idas diárias à casa de banho.

Consumo moderado

Tal como acontece com muitas outras coisas, a questão é a moderação.

No entanto, se está mesmo a considerar retirar a cafeína da alimentação, a melhor estratégia é fazê-lo gradualmente. Deixar tudo “de uma só vez” provocará efeitos secundários, como dores de cabeça e cansaço, que podem persistir durante duas a três semanas.

A intensidade e a duração destes efeitos dependem da quantidade de cafeína consumida diariamente e há quanto tempo esse hábito existe.

Adam Taylor, Professor e Director do Centro de Aprendizagem de Anatomia Clínica, Universidade de Lancaster

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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Inês Margarida Correia

Inês Margarida Correia é engenheira alimentar e consultora em processos de panificação e confeção em forno, com especialização em fornos tradicionais e controlo de temperatura e humidade. No sitiodoforno, partilha conhecimento sobre técnicas de cozedura, manutenção de fornos e receitas que valorizam a tradição portuguesa com rigor técnico. Interessa-se particularmente por fermentações, lenha e eficiência energética aplicada à cozinha.

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