Ao lado do Seiva, o seu primeiro projecto de alta cozinha vegetariana, David Jesus inaugurou em janeiro o Feitio. Aqui, o foco muda para a cozinha tradicional e regional, com a marca das raízes setubalenses do chef e aquilo a que chama “cozinha direta”, onde a emoção entra como parte essencial do prato.
Do Seiva ao Feitio: cozinha tradicional e regional com David Jesus
À hora de almoço, David Jesus veste a jaleca, mas não fica atrás do fogão. Nos dias de maior afluência, divide-se pela sala, com um acolhimento atento e um humor contido, sempre próximo. No Feitio, a cozinha tradicional e regional portuguesa que apresenta assenta, acima de tudo, na dimensão emocional.
A “cozinha direta” e a proximidade da sala
"Aqui entra a dinâmica da sala, a proximidade descontraída, que é um dos pilares do Feitio. Se as pessoas se sentirem em casa aqui, tudo é mais fácil", refere David Jesus. "Num fine dining, expressamos a nossa cozinha. É muito sobre nós como cozinheiros. Neste perfil de restaurante, a última coisa que quero é que tudo recaia sobre mim. Quando sirvo uma cabidela, quero que digam, "Isto faz lembrar aquela cabidela que eu gostei muito". O Feitio não é sobre mim ou sobre nós, é sobre aqueles que nos visitam."
Trabalhar com “pratos diretos” ajuda a contornar a “barreira da interpretação” associada à cozinha de autor. Para o chef, isso "é um ponto a favor para que a experiência seja mais leve e descontraída". Ainda assim, sublinha que, "quando se leva a comida à boca, percebe-se que há um trabalho um pouco diferente" - uma forma de pensar que vem da técnica e da formação. "A minha avó não tinha o tipo de conhecimento que eu tenho, nem acesso à mesma tecnologia. Naturalmente, hoje conseguimos fazer uma melhor cozinha. O ponto de conexão à tradição é o valor emocional que lhe damos."
A carta do Feitio: memórias de Setúbal e pratos de várias regiões
David Jesus defende que a cozinha do Feitio tem "a audácia emocional de ir buscar o que cada um já viveu" - tanto para quem se senta à mesa como para si próprio. Natural de Setúbal, leva para a carta recordações pessoais e a sua ideia de “autenticidade regional do sul”. "Há muitos restaurantes tradicionais em Leça da Palmeira e eu queria evitar fazer o que já se faz."
A resposta passou por trazer o sul para o norte. Nas entradas surgem, por exemplo, choco frito ou espargos com salpicão de porco preto; nos pratos principais, aparecem a feijoada de choco ou os secretos de porco preto com migas alentejanas. O mapa, porém, não fica por aí: há também vitela assada, cabidela, bochechas de porco preto com arroz de forno, bacalhau frito com batata e cebolada (mais conhecido como bacalhau à Braga) e tiborna de bacalhau, já como entrada. Para petiscar, encontra-se ainda alheira de caça na brasa.
Peixe do dia, cozinha aberta e três xiripitis
Todos os dias entram sugestões fora da carta, decididas depois de o chef ir buscar peixe e perceber o que faz sentido no momento. Regra geral, esse peixe vai à grelha na cozinha aberta, mesmo atrás do balcão.
No final da refeição, o cliente recebe três xiripitis bem aromatizados. Esta “cozinha direta” era algo de que David Jesus sentia falta - e, pelo ambiente, parece estar a resultar: já perto do fim do almoço, há quem prolongue a mesa, entre conversa e boa disposição. "É isto o Feitio: uma casa feliz", remata.
Feitio (informações práticas)
- Morada: Rua Francisco Sá Carneiro, 59, Leça da Palmeira
- Tel.: 934 213 652
- Instagram: instagram.com/feitio.restaurante
- Horário: Das 12h30 às 15h e das 19h às 23h, de quarta a sábado; das 19h às 23h à terça
- Preço médio: 30 euros
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