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Epicuro e a gratidão pelo que já foi alcançado

Mulher sorridente a beber chá numa mesa com fruta e pão, varanda com plantas e vista para o templo da Acrópole.
Neste artigo
  1. Qual é a origem da frase atribuída ao filósofo grego?
  2. O que queria Epicuro dizer com não desejar o que falta?
  3. Porque é que a felicidade não dependia da acumulação de bens?
  4. O epicurismo não defendia o luxo
  5. Como aplicar esta reflexão sobre gratidão no dia a dia?

Epicuro apresenta nesta reflexão uma abordagem prática da gratidão: perceber que muito do que hoje se encara como normal foi, em tempos, um desejo relevante. Não se trata de rejeitar toda a ambição, mas de evitar que a procura do que ainda falta faça esquecer o valor das conquistas, das amizades e da tranquilidade que já existem.

Qual é a origem da frase atribuída ao filósofo grego?

Esta formulação não é habitualmente encontrada nas Cartas a Lucílio, apesar de Séneca mencionar ensinamentos epicuristas em várias cartas. A ideia corresponde à Sentença Vaticana 35, uma máxima que aconselha a não prejudicar o presente por desejar aquilo que ainda não se possui.

O filósofo grego, fundador do epicurismo, nasceu em 341 a.C. e estabeleceu em Atenas uma escola chamada O Jardim. Nesse espaço, os seus discípulos procuravam uma felicidade assente na serenidade, na reflexão, na convivência e na redução de medos desnecessários.

O que queria Epicuro dizer com não desejar o que falta?

A frase não impede a definição de novos objectivos. Em vez disso, questiona o desejo que faz com que tudo o que já foi alcançado pareça insuficiente. A gratidão permite recuperar a memória do percurso feito e impede que a comparação permanente destrua a satisfação com o presente.

  • Lembrar objectivos antigos que já foram concretizados;
  • Distinguir necessidades reais de desejos gerados pela comparação;
  • Reconhecer as pessoas que contribuíram para as conquistas;
  • Dar valor a recursos que actualmente parecem banais;
  • Procurar novos objectivos sem desvalorizar a situação presente.

Porque é que a felicidade não dependia da acumulação de bens?

Para o epicurismo, o prazer mais seguro não se encontrava no excesso, mas na ausência de dor física e de perturbação mental. Quanto mais alguém faz depender a felicidade da riqueza, do prestígio ou do consumo, mais se expõe à ansiedade de obter, manter e aumentar aquilo que possui.

O filósofo distinguia os desejos naturais e necessários, relacionados com a alimentação, o abrigo e a segurança, daqueles sem um limite definido, como a glória e a riqueza. A gratidão ajuda a identificar quando já se atingiu o suficiente, evitando que uma vontade interminável substitua a tranquilidade.

O epicurismo não defendia o luxo

O uso moderno da palavra «epicurista» sugere frequentemente banquetes dispendiosos e prazeres requintados, mas a doutrina dava importância à moderação, à saúde e à amizade. O prazer defendido pelo filósofo era o da medida certa, capaz de gerar serenidade, e não uma sucessão de excessos que criasse novas dependências.

  • Alimentação suficiente, sem necessidade de ostentação;
  • Amigos de confiança com quem partilhar a vida;
  • Liberdade perante desejos artificiais;
  • Tempo para reflectir e ter conversas com significado;
  • Serenidade desenvolvida através de hábitos simples.

Como aplicar esta reflexão sobre gratidão no dia a dia?

Uma prática possível consiste em reparar em algo que hoje parece habitual e recordar quando ainda era apenas uma expectativa. Pode tratar-se de um emprego, de uma amizade, de uma casa, de uma competência ou de uma fase de maior estabilidade. O exercício não exige ignorar as dificuldades, mas evita que a atenção fique limitada àquilo que ainda não aconteceu.

Esta atitude aproxima-se da reflexão de Marco Aurélio sobre os pensamentos e a felicidade, uma vez que ambas sublinham a forma como a mente interpreta o presente. Na vida simples defendida pelo epicurismo, agradecer não é deixar de avançar, mas impedir que o desejo seguinte torne invisível aquilo que, um dia, pareceu distante.

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Inês Margarida Correia

Inês Margarida Correia é engenheira alimentar e consultora em processos de panificação e confeção em forno, com especialização em fornos tradicionais e controlo de temperatura e humidade. No sitiodoforno, partilha conhecimento sobre técnicas de cozedura, manutenção de fornos e receitas que valorizam a tradição portuguesa com rigor técnico. Interessa-se particularmente por fermentações, lenha e eficiência energética aplicada à cozinha.

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