Os períodos de calor intenso nem sempre são fáceis para o mundo do vinho. É normal que, nesta altura, se beba mais vinho branco e rosé - e isso faz sentido -, mas convém evitar o consumo automático, sem qualquer critério. Quando se pede vinho “estupidamente gelados”, para usar uma expressão que ouvi num restaurante de praia, acaba-se muitas vezes num patamar em que a qualidade cai a pique. Até um branco com boa reputação, se for servido frio demais, tende a nivelar por baixo, porque as suas virtudes ficam escondidas. Nesse limite, o que se sente é praticamente só o frio, e deixa de haver atenção ao que está no copo.
Espumante e Champagne como companhia de verão
Para acompanhar petiscos de verão, o espumante pode cumprir muito bem a função: nem sempre se distingue com clareza o que se está a beber e as bolhas facilitam esse tipo de consumo. Ainda assim, um grande espumante ou um bom Champagne pedem outro cuidado e outro serviço.
Os espumantes mais vulgares “vão a todas” e ligam-se sem dificuldade a quase qualquer petisco. Já os bons exemplares, mesmo podendo também servir para esse papel, merecem uma abordagem diferente: em vez de irem ao congelador, devem ser arrefecidos num balde com gelo, onde ficam até a garrafa se esvaziar. E, em vez de snacks apressados, combinam na perfeição com canapés bem pensados e melhor executados.
Sem grande margem para dúvida, o espumante é um aliado de eleição no estio - por isso, antes das férias, faz sentido reforçar a garrafeira. Há opções para todas as bolsas e, em várias regiões do país, existem escolhas de qualidade.
Temperatura, copos e o erro do “frio a mais”
Os grandes produtos são complexos e exigentes de produzir e, por esse motivo, tendem a ter preços mais altos. No caso do champanhe, o valor elevado está igualmente ligado à qualidade e ao peso da fama junto do consumidor. Pode parecer que nenhum champanhe justifica pagar €100 ou mais, mas aqui manda a lei da oferta e da procura: há quem não ache esse montante exagerado e prefira uma marca de prestígio em detrimento de outra que, apesar de bem feita, não conquistou a notoriedade e a raridade que alguns procuram. Como são poucos, o preço acaba por refletir essa escassez.
Mais sensato é mantermo-nos num patamar acessível - e, assim, todos beneficiamos. Entre nomes seguros, surgem Murganheira e Vértice, mas também Quinta do Rol, Aliança, Bágeiras, Soalheiro, Real Companhia Velha, Quanta Terra ou S. Domingos, todas marcas com prestígio.
Quanto ao serviço, um grande espumante ou um bom Champagne não pede a flute tradicional: resulta melhor com copos mais largos e com uma temperatura na ordem dos 8°.
Vinhos brancos e rosés no calor (e o lugar dos tintos)
Há espumantes a ganhar força em Bucelas e no Vinho Verde, nomeadamente de Alvarinho. Menos consensuais, mas ainda com um público fiel, estão os espumantes tintos. Quase inexistentes em Champagne, têm por cá alguma expressão, com referências como Aliança ou Murganheira, mais apontadas para as sardinhas assadas ou para a entremeada na grelha.
Voltando aos brancos (incluindo aqui os rosés), nesta fase convém deixar em cave os vinhos mais maduros, com mais idade e com madeira - esteja ela mais evidente ou mais discreta. O tempo pede brancos mais leves e com teor alcoólico moderado. De alguns, provavelmente, não ficará grande memória, mas o verão tem essa leveza: não vale a pena pensar demasiado nem transformar o consumo num exercício complicado. Também é a estação em que as brincadeiras das provas cegas podem ficar em pausa. E, para os aficionados, um gin tónico ao regressar da praia é obrigatório. Já o tinto que recomendamos é para assuntos gastronomicamente sérios e deve passar pelo frio antes de ser servido.
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