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10 erros no congelador que desperdiçam comida

Pessoa a colocar molhos e alimentos caseiros embalados e etiquetados num frigorífico organizado.
Neste artigo
  1. 1. Congelar carne na embalagem do supermercado
  2. 2. Guardar sobras ainda quentes
  3. 3. Usar qualquer recipiente que apareça
  4. 4. Congelar tudo num único bloco gigante
  5. 5. Ignorar etiquetas e datas - e confiar na memória
  6. 6. Guardar pão em qualquer espaço disponível
  7. 7. Tratar as ervas aromáticas como se fossem imortais
  8. 8. Deixar o gelado na porta do congelador
  9. 9. Encher demasiado o congelador “para aproveitar espaço”
  10. 10. Achar que “congelado dura para sempre”
  11. Um lugar mais frio, uma vida mais leve

Chega uma altura em que todos os congeladores se transformam numa espécie de cápsula do tempo gelada. Abre-se a porta, uma pequena nuvem de ar frio bate-nos na cara e lá está: o meio saco de ervilhas do ano passado, a caixa misteriosa coberta de gelo, o pão que agora estala como esferovite de embalagem. Dizemos a nós próprios que estamos a “cozinhar em lote” e a “reduzir o desperdício alimentar”, mas, no fundo, sabemos que também estamos a erguer um monumento às boas intenções. O congelador devia ser a nossa rede de segurança para os dias mais difíceis, não um cemitério de sobras esquecidas. Ainda assim, uma a uma, as coisas vão morrendo lá dentro em silêncio.

Eis a reviravolta: grande parte desse desperdício não depende tanto do que congelamos, mas da forma como o fazemos. Pequenos hábitos - o recipiente errado, uma etiqueta deixada para depois, uma gaveta cheia até rebentar - estragam discretamente os alimentos muito antes do tempo. Alguns destes erros são tão habituais que nem parecem erros. Outros podem mesmo surpreender-te. De qualquer maneira, depois de os reconheceres, já não conseguirás deixar de os ver.

1. Congelar carne na embalagem do supermercado

Conheces aquele momento em que atiras uma embalagem de frango, ainda dentro do saco das compras, directamente para o congelador, prometendo que vais “arrumá-la como deve ser mais tarde”? Esse mais tarde nunca chega. Os tabuleiros finos de supermercado e o plástico frágil foram mal pensados para a viagem até casa, quanto mais para passarem meses a temperaturas negativas. Os espaços com ar em volta da carne favorecem a queimadura pelo frio: aquela crosta acinzentada e seca que, quando finalmente cozinhas a carne, deixa tudo com um ligeiro cheiro a cubos de gelo velhos.

Embalar bem a carne pode ser a diferença entre um assado suculento e algo com o sabor de uma refeição de avião de 1998. Retira o tabuleiro do supermercado, seca a carne com papel de cozinha e embrulha-a apertadamente em papel próprio para congelador ou em folha de alumínio, expulsando o máximo de ar possível. Colocar depois um saco de congelação identificado oferece protecção adicional e permite empilhar tudo de forma mais arrumada. Pode parecer uma maçada depois de uma grande ida às compras, mas a carne congelada conserva-se mais tempo e sabe muito melhor quando não fica parcialmente exposta ao ar gelado.

2. Guardar sobras ainda quentes

Todos já tivemos uma noite em que a massa gratinada fica finalmente pronta, a loiça suja parece encarar-nos e a única coisa que queremos é sentar-nos no sofá. A vontade de pôr as sobras quentes em recipientes e tirá-las da vista é enorme. Vão directamente para o congelador, com as tampas colocadas, e assunto resolvido. Só que o congelador não é um portal mágico: é uma máquina que tem de se esforçar para baixar aquela temperatura, enquanto todos os alimentos à volta sofrem as consequências.

Colocar comida quente no congelador pode elevar temporariamente a temperatura interior, descongelando em parte os alimentos próximos, que depois voltam a congelar. É aí que as texturas ficam estranhas e os cristais de gelo se multiplicam. Deixa os alimentos cozinhados arrefecerem na bancada até ficarem apenas mornos e, antes de os congelar, coloca-os no frigorífico. Os recipientes pouco fundos aceleram o arrefecimento e diminuem o risco daquela camada suspeita de gelo que faz perguntar “afinal, o que é isto?” em tudo o que tens guardado.

3. Usar qualquer recipiente que apareça

As caixas reutilizadas de comida para levar parecem a ideia mais inteligente do mundo: são empilháveis, gratuitas e vagamente virtuosas. No entanto, nem todos os plásticos foram concebidos para suportar o frio; alguns tornam-se quebradiços, as tampas deformam-se e pequenas fissuras deixam entrar ar e gelo. O resultado são zonas secas na lasanha e uma caixa que se parte no instante em que tentas dobrá-la “só um bocadinho” para retirar a comida.

Os recipientes próprios para congelador não são apenas uma manobra de marketing. São mais espessos, vedam melhor e protegem os alimentos do ar frio e seco que lhes retira a humidade. Se preferires sacos, escolhe modelos resistentes e retira o máximo de ar antes de os fechar. É a diferença entre abrir uma gaveta organizada, com refeições identificadas, e encolher-te perante uma avalanche de plástico deformado e blocos congelados anónimos a cair na direcção dos teus pés.

4. Congelar tudo num único bloco gigante

Há um arrependimento muito particular em lutar, às 18h, com um pedaço congelado de carne picada do tamanho de um livro de bolso. Só querias duas doses, não uma escultura de gelo. O mesmo acontece com frutos vermelhos, fruta cortada e até legumes preparados. Quando congelam numa massa compacta, tens de descongelar mais do que precisas e uma parte acaba inevitavelmente no lixo.

A utilidade de congelar em camadas finas

Dividir em porções é aborrecido, mas o teu eu do futuro ficará estranhamente agradecido. Coloca alimentos como carne picada, arroz cozido ou molhos em sacos de congelação, achata-os em folhas finas e retira o máximo de ar possível. Congelam mais depressa, descongelam mais depressa e empilham-se como livros numa estante. Para frutos vermelhos, batatas fritas ou legumes picados, experimenta congelar primeiro num tabuleiro: espalha-os, congela-os até ficarem firmes e só depois passa-os para um saco. De repente, o congelador passa a funcionar como uma selecção à escolha, e não como um bloco de arrependimento.

5. Ignorar etiquetas e datas - e confiar na memória

Sejamos honestos: ninguém escreve a data exacta e a descrição completa em tudo o que congela, todas as vezes. Convences-te de que vais recordar que aquela caixa manchada de laranja contém “caril de lentilhas de Dezembro, e não sopa de Março passado”. Passam-se meses. Numa terça-feira triste, descongelas aquilo que tens a certeza ser molho à bolonhesa e descobres que, afinal, é puré de maçã.

Uma caneta de feltro barata e um conjunto de etiquetas simples mudam completamente a situação. Não é preciso um sistema elaborado: basta o nome e o mês/ano, como “Chili - set. 24” ou “Caldo de galinha - jan. 25”. O teu cérebro já tem que fazer suficiente; não precisa também de servir de inventário do congelador. Desperdiças menos comida, planeias as refeições mais depressa e as caixas misteriosas deixam de gozar contigo no fundo da gaveta sempre que a abres.

6. Guardar pão em qualquer espaço disponível

O pão congelado recebe muitas culpas. Há quem diga que “fica com sabor a velho” ou que “ganha uma textura estranha”, quando, na verdade, a questão está sobretudo no local e na forma como é guardado. Pães atirados soltos para o congelador, sacos meio abertos, pão de forma enfiado atrás do gelado sem retirar o ar: tudo isto é um convite para secar. Ao fim de algumas semanas, começa a saber ao próprio congelador, com aquele ligeiro travo a cartão gelado que nem a torradeira consegue disfarçar totalmente.

Como evitar que o pão saiba ao congelador

Se comprares pão de forma, aperta o saco para retirar o ar antes de o fechar bem. No caso de pães de padaria, corta-os primeiro às fatias e embrulha porções em folha de alumínio ou coloca-as em sacos de congelação, depois de expulsar o ar. Guardar o pão a meio da gaveta, longe da corrente directa de ar frio, ajuda a impedir que seque tão rapidamente. De repente, as torradas congeladas voltam a parecer um truque inteligente, em vez de uma solução triste.

7. Tratar as ervas aromáticas como se fossem imortais

A certa altura, compras um grande molho de coentros ou salsa cheio de ambições: salsa fresca, guarnições sofisticadas, talvez uma sopa com aspecto de fotografia de livro de receitas. Na prática, acabas com um molho mole a murchar no frigorífico. Então fazes a coisa “virtuosa”: picas as ervas e enfias tudo num saco para o congelador. Um mês depois, tiras de lá um aglomerado verde e gelado que quase não cheira a nada.

As ervas aromáticas precisam de algum cuidado antes de enfrentarem o frio. Pica-as e congela-as em cuvetes de gelo com um pouco de azeite ou manteiga derretida, prontas a juntar a molhos e guisados. Em alternativa, espalha-as num tabuleiro, congela-as e transfere depois as folhas soltas para um saco, para poderes tirar apenas uma pitada em vez de um bloco. Demora mais alguns minutos numa tarde de domingo, mas essas pequenas explosões de sabor parecem milagrosas numa quinta-feira à noite mais apressada.

8. Deixar o gelado na porta do congelador

Há sempre alguém em casa que põe o gelado na porta do congelador “para ser mais fácil de alcançar”. Parece lógico. O problema é que esse local é a parte mais instável do congelador, constantemente atingida por ar quente sempre que alguém abre a porta para tirar ervilhas ou batatas fritas. O gelado amolece ligeiramente e volta a congelar, repetidamente, até adquirir uma textura granulosa, cheia de gelo, e uma triste barba de geada à volta da tampa.

Se vais oferecer-te um bom gelado, dá-lhe também um bom lugar. A parte de trás do compartimento principal é bem mais fria e estável, o que mantém a textura cremosa durante mais tempo. Antes de fechar a tampa, coloca uma folha de papel vegetal ou película aderente directamente sobre a superfície para reduzir a formação de cristais de gelo. À primeira vez parece excessivo, mas depois provas a diferença e começas a fazê-lo sem pensar.

9. Encher demasiado o congelador “para aproveitar espaço”

Existe uma satisfação estranha em ver um congelador completamente cheio. Caixas empilhadas, sacos apertados, pequenas embalagens encaixadas em qualquer espaço livre. Por fora, parece económico e organizado. Nos bastidores, o ar deixa de circular devidamente, o motor trabalha em excesso e começas a jogar ao perigoso “se tirar uma coisa, será que o resto desaba?”

Espaço, ar frio e aquela gaveta esquecida

Os congeladores gostam de estar razoavelmente cheios, mas não ao ponto de parecer um jogo obsessivo de Tetris. Se as gavetas estão a rebentar e tens de as forçar para fechar, os alimentos nas extremidades podem não congelar de maneira uniforme, e os alimentos quentes que acabaste de guardar demoram mais tempo a arrefecer. De vez em quando, roda os produtos mais antigos para a frente e sê honesto sobre aquilo que nunca será consumido. Há um alívio discreto em eliminar aquele saco de qualquer-coisa-misteriosa de 2021 e devolver algum espaço de respiração ao congelador.

10. Achar que “congelado dura para sempre”

Existe o mito reconfortante de que, depois de congelados, os alimentos ficam seguros para toda a vida. Do ponto de vista da segurança alimentar, há alguma verdade nisso: os alimentos congelados não se tornam subitamente perigosos só por ficarem lá demasiado tempo. Já a qualidade é outra história. Os sabores desvanecem-se, as texturas alteram-se e até os alimentos bem embalados começam a ganhar o sabor de fundo do congelador quando ficam meses para lá do seu melhor momento.

Os alimentos congelados também têm um período em que estão no seu melhor, embora não seja tão rigoroso como as datas dos alimentos frescos. A maioria das refeições congeladas em casa conserva a melhor qualidade durante três a seis meses; a carne e o peixe podem durar mais se forem bem embalados, mas não são imortais. Uma regra simples: se não te lembras de o ter congelado, provavelmente já passou o seu auge. Criar o pequeno hábito de verificar o congelador antes de fazer a lista de compras pode poupar-te dinheiro, tempo e alguma culpa todas as semanas.

Um lugar mais frio, uma vida mais leve

O congelador fica ali, a zumbir num canto, a cumprir o seu trabalho discreto e pouco glamoroso. Batemos a porta, enchemo-lo em excesso, esquecemos o que lá pusemos e depois culpamo-lo quando os alimentos saem gelados ou sem sabor. Na maior parte das vezes, não é a máquina que nos falha; são os pequenos atalhos e os momentos de “depois trato disso” que se acumulam. A boa notícia é que não precisas de uma folha de cálculo nem de uma despensa digna de uma rede social para mudar isto.

Muda alguns hábitos - embala melhor, deixa arrefecer primeiro, identifica, deixa algum espaço - e o congelador torna-se aquilo que devia ser: uma memória de reserva, um salvador a meio da semana, um pequeno alívio nos dias em que já não tens energia. Talvez até passes a abri-lo sem aquela pequena pontada de receio. E se, lá no fundo, ainda encontrares uma triste coisa misteriosa, impossível de identificar e coberta de gelo? Sorri, deita-a fora e vê-a como uma prova de que tu e o teu congelador estão agora a aprender a fazer as coisas de outra maneira.

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Inês Margarida Correia

Inês Margarida Correia é engenheira alimentar e consultora em processos de panificação e confeção em forno, com especialização em fornos tradicionais e controlo de temperatura e humidade. No sitiodoforno, partilha conhecimento sobre técnicas de cozedura, manutenção de fornos e receitas que valorizam a tradição portuguesa com rigor técnico. Interessa-se particularmente por fermentações, lenha e eficiência energética aplicada à cozinha.

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