Perguntar a alguém com que frequência sentiu, no último ano, uma vontade intensa de beber é pedir à memória algo para o qual nunca foi concebida.
A memória não funciona como um gravador. Assemelha-se mais a um contador de histórias: suaviza as partes mais ásperas, amplifica os episódios dramáticos e omite os períodos monótonos pelo meio.
Por isso, quando os profissionais de saúde recorrem a questionários que pedem às pessoas para recordarem doze meses de consumo de álcool, coloca-se uma questão pertinente: até que ponto essas respostas correspondem ao que realmente aconteceu?
Um novo estudo pôs esta hipótese à prova. Investigadores da Universidade de Washington acompanharam 496 jovens adultos durante dois meses e pediram-lhes que registassem o consumo de álcool nos telemóveis cinco vezes por dia, durante os fins de semana.
Falhas de memória no consumo de álcool
Habitualmente, os médicos diagnosticam a perturbação do uso de álcool pedindo às pessoas que reflitam sobre o consumo passado. Instrumentos como o AUDIT e o DSM-5 levam-nas a resumir vários meses de comportamentos num questionário curto.
Não é uma tarefa simples para o cérebro. É necessário estimar a frequência dos acontecimentos, perceber as suas causas, recordar as intenções da pessoa e identificar pequenas mudanças ao longo do tempo. Tudo isto pode resultar em erros ou respostas pouco claras.
“Algumas das medidas retrospectivas apresentaram uma associação elevada com as medidas diárias, mas outras tiveram uma associação menor”, afirmou Dani Kang, autora principal do artigo.
“Estamos a perder metade do retrato”, acrescentou o coautor Kevin King.
O acompanhamento em tempo real traz clareza
Uma alternativa consiste em monitorizar o comportamento no momento em que ocorre. Os investigadores enviaram questionários breves para os telemóveis dos participantes cinco vezes por dia, de quinta-feira a domingo. Também contactaram os participantes na segunda-feira de manhã, para abranger a noite de domingo.
Ao longo de cerca de 3.300 dias de consumo, registaram sete sinais fundamentais de perturbação do uso de álcool: consumo de risco, problemas sociais, falhas nas responsabilidades, tempo dedicado ao álcool, tolerância, beber mais do que o previsto e desejo intenso de beber.
“Estamos a fazer toda esta investigação para compreender a etiologia da PUA, mas estamos a fazê-la com avaliações inteiramente retrospectivas. Não podemos usar esses relatos para perceber de que forma a PUA progride e se desenvolve no quotidiano”, observou King.
Alguns sintomas são recordados com facilidade
Em relação a certos sintomas, os dois métodos produziram resultados semelhantes. O consumo de risco, as dificuldades sociais, as responsabilidades falhadas e o tempo perdido devido a ressacas coincidiram bem entre os registos diários e aquilo de que as pessoas se lembravam mais tarde.
Estes aspetos são mais fáceis de recordar porque envolvem acontecimentos concretos, como uma perda de memória, uma discussão, faltar ao trabalho ou sentir-se mal no dia seguinte. As pessoas tendem a recordar esses momentos com nitidez.
Este padrão manteve-se também ao longo do tempo. O que os participantes registaram nos diários diários ajudou a prever o que viriam a relatar sobre o consumo de álcool seis meses depois.
Outros sintomas, como o desejo intenso de beber e a tolerância, revelaram-se mais difíceis de acompanhar.
“É justo dizer que as pessoas conseguem recordar melhor o que lhes aconteceu do que aquilo que sentiram em relação a isso”, disse King.
Por exemplo, alguém pode sentir uma forte vontade de beber ao fim da tarde, mas já não a sentir na manhã seguinte. Mais tarde, poderá recordar apenas esse momento intenso ou esquecê-lo por completo.
A tolerância e os limites pouco claros
A tolerância também pode gerar confusão. Uma pessoa pode começar gradualmente a beber mais, sem se aperceber claramente dessa alteração ou sem a conseguir recordar.
O sintoma de “beber mais do que o pretendido” revelou um padrão interessante. Beber mais uma bebida não se destacou de forma significativa. Contudo, consumir três ou mais bebidas adicionais fez uma diferença clara.
Por exemplo, é fácil esquecer uma cerveja extra numa saída à noite. Já beber muito mais do que se planeava, como várias bebidas adicionais, é algo de que as pessoas se lembram com maior clareza.
O que isto significa para a avaliação
Os resultados não constituem uma condenação dos questionários retrospectivos. Cada instrumento responde a questões diferentes.
O AUDIT identifica padrões de longo prazo. Os diários diários captam a textura da experiência: quando o consumo ocorre, o que o acompanha e que contexto o molda.
“As avaliações em tempo real e as retrospectivas não são intermutáveis, porque têm pontos fortes diferentes”, afirmou King.
“As avaliações em tempo real dizem-nos como alguém experiencia o mundo naquele momento. As avaliações retrospectivas são uma combinação de momentos agregados e da forma como as pessoas os avaliam ou lhes atribuem sentido.”
Basear-se apenas num dos métodos, alertou, representa uma visão metodológica limitada. “Quando se tem um martelo, tudo parece um prego. Precisamos de desenvolver e aperfeiçoar estas ferramentas para as podermos usar de uma forma menos rudimentar.”
Os hábitos diários têm mais importância
Este estudo ilustra uma ideia simples: aquilo de que se recorda acerca do seu consumo de álcool nem sempre revela o retrato completo.
É mais provável que se lembre de episódios marcantes, como uma ressaca forte ou uma discussão. No entanto, poderá esquecer padrões subtis, como a frequência com que sentiu vontade de beber ou a forma gradual como os seus hábitos mudaram.
Para quem bebe regularmente, isto significa que é útil prestar atenção ao comportamento quotidiano, e não apenas aos acontecimentos mais relevantes.
Reparar em pequenas mudanças, como beber um pouco mais do que é habitual ou sentir vontades mais fortes em determinadas alturas, pode dar uma imagem mais nítida dos seus hábitos.
Também sugere que, se quiser compreender ou gerir o seu consumo de álcool, um acompanhamento diário simples pode ser útil. Até notas breves no telemóvel sobre o que bebeu e como se sentiu podem revelar padrões que a memória, por si só, poderá não detetar.
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