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Ube (inhame-roxo): da tradição filipina à tendência gastronómica global

Dois homens em campo a mostrar raízes roxas e a servir bolos roxos, com cesta e saco de raízes no balcão de madeira.
Neste artigo
  1. O que é o ube (inhame-roxo) e porque surge em tantas receitas?
  2. De que forma a popularidade global do ube afecta agricultores e comunidades locais?
  3. Quais são os desafios entre a subida da procura e a redução da produção?
  4. Que soluções podem reforçar o futuro do ube no campo e à mesa?

O ube, designado em Portugal por inhame-roxo, deixou de ser apenas um ingrediente característico das Filipinas para se afirmar em cafés, padarias e pastelarias de vários continentes. A tonalidade marcante e o paladar subtil fizeram deste tubérculo uma tendência gastronómica mundial, presente em bebidas, sobremesas e produtos industriais, com efeitos também no dia a dia dos agricultores e nos métodos de cultivo.

O que é o ube (inhame-roxo) e porque surge em tantas receitas?

O ube é um tubérculo de polpa violeta, fonte de hidratos de carbono e antioxidantes naturais, usado tradicionalmente nas Filipinas em doces, compotas, cremes e sobremesas festivas. Para muitos povos indígenas, o inhame-roxo constitui um alimento essencial, associado à segurança alimentar e a técnicas agrícolas transmitidas de geração em geração.

A sua divulgação fora da Ásia começou em restaurantes de emigrantes filipinos e intensificou-se graças à combinação entre a cor viva e o sabor suave, que despertou o interesse da pastelaria artesanal e da indústria alimentar. Actualmente, é utilizado em cafés frios, donuts, panquecas, waffles, gelados e pães roxos, sendo muitas vezes apresentado como um ingrediente “exótico” e apelativo para as redes sociais.

De que forma a popularidade global do ube afecta agricultores e comunidades locais?

A maior procura externa por produtos processados de inhame-roxo, incluindo pós, extractos e pastas, valorizou o tubérculo e permitiu aos agricultores obter preços mais elevados do que nos mercados locais. Em determinadas zonas, produtores que antes vendiam o quilograma abaixo do custo passaram a conseguir rendimentos mais regulares através de intermediários e de pequenas agroindústrias.

Porém, a corrida para tirar partido da “febre do ube” levou muitos produtores a comercializar quase toda a produção, diminuindo a quantidade destinada a material de plantação. Como consequência, aumentou a dependência de plantas fornecidas por centros de investigação, entidades públicas e ONG, criando listas de espera e reforçando a necessidade de formação em gestão dos solos, controlo de pragas e conservação segura das raízes.

Quais são os desafios entre a subida da procura e a redução da produção?

Apesar da elevada procura internacional por ube em pó, extractos e sobremesas preparadas, os dados oficiais apontam para uma redução do volume colhido nas Filipinas, que continuam a ser uma referência mundial no seu cultivo. A falta de sementes de qualidade, a disputa por terrenos agrícolas e a preferência por culturas mais fáceis de gerir contribuem para explicar este paradoxo produtivo.

Para atenuar este desfasamento, associações de agricultores e cooperativas procuram aumentar o valor do tubérculo, dando prioridade à exportação de produtos transformados em vez de raízes frescas. Neste modelo, as iniciativas locais coordenam medidas como:

  • Criação de pequenas unidades de produção de pastas, pós e doces junto das zonas de cultivo.
  • Negociação conjunta de contratos com compradores estrangeiros para obter melhores preços.
  • Formação em rotação de culturas, conservação de plantas e colheita com menores perdas.

Que soluções podem reforçar o futuro do ube no campo e à mesa?

Especialistas em desenvolvimento rural defendem o investimento em bancos de germoplasma, de modo a proteger diferentes variedades de inhame-roxo, e o incentivo a sistemas agroflorestais que combinem o tubérculo com outras espécies. As linhas de crédito e o apoio técnico durante a fase inicial de expansão das áreas cultivadas permitem aos pequenos agricultores enfrentar melhor os riscos climáticos, as pragas e as variações de preço.

A organização de cooperativas para negociar exportações, as parcerias entre centros de investigação e comunidades indígenas, bem como a rotulagem transparente que identifica a origem do ube, assumem igualmente uma importância crescente. Ao aproximar os consumidores urbanos das histórias de quem cultiva, transforma e comercializa o inhame-roxo, cada bebida roxa ou fatia de bolo passa a representar um encontro entre gastronomia globalizada, cultura alimentar e território.

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Inês Margarida Correia

Inês Margarida Correia é engenheira alimentar e consultora em processos de panificação e confeção em forno, com especialização em fornos tradicionais e controlo de temperatura e humidade. No sitiodoforno, partilha conhecimento sobre técnicas de cozedura, manutenção de fornos e receitas que valorizam a tradição portuguesa com rigor técnico. Interessa-se particularmente por fermentações, lenha e eficiência energética aplicada à cozinha.

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