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Cartilha Tempero de Oyá celebra saberes e cultura alimentar afro-brasileira

Mulher a cozinhar com ingredientes frescos e grupo a observar e anotar durante aula ao ar livre.
Neste artigo
  1. Cartilha Tempero de Oyá: alimentação, memória e comunidade
  2. Debates sobre soberania e racismo alimentar
  3. Sobre a Coletiva Tempero de Oyá
  4. Informações sobre o lançamento

Após vários meses de encontros, partilha de conhecimentos, escuta colectiva e troca de vivências, a Coletiva Tempero de Oyá (@temperode_oya) assinala a edição da Cartilha Tempero de Oyá. De acesso gratuito, a publicação reúne as aprendizagens desenvolvidas no projecto Sabores do Tempo – Conexões Entre o Saber e o Fazer, concretizado em Perus, na Zona Noroeste de São Paulo.

Mais do que um registo das iniciativas realizadas, a cartilha afirma-se como um testemunho de memória, resistência e reconhecimento da cultura alimentar afro-brasileira e periférica. O seu conteúdo propõe reflexões sobre alimentação, ancestralidade, território e identidade, incluindo receitas repletas de narrativas e afectos, como Moqueca de Banana-da-Terra, Baião de Dois, Escondidinho de Mandioca com Carne-Seca e outras preparações partilhadas durante o percurso.

Cartilha Tempero de Oyá: alimentação, memória e comunidade

No âmbito do projecto, foram promovidos vários círculos de conversa gratuitos, com interpretação em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), que fizeram da cozinha um lugar de aprendizagem, escuta e reforço dos laços comunitários.

A sessão inaugural decorreu em fevereiro, sob o tema “Nutrição e Saúde”, e contou com a presença da educadora social Valéria Pássaro. A iniciativa convidou à reflexão sobre a alimentação enquanto direito essencial e manifestação cultural, explorando a ligação entre saúde, memória, afecto e acesso a alimentos de qualidade. Com base em testemunhos pessoais e situações do quotidiano, os participantes partilharam as suas experiências alimentares e os obstáculos vividos nos respectivos territórios.

Em março, a bióloga Bruna Macedo orientou o círculo “Soberania Alimentar: Plantar e Colher”, aprofundando a conversa em torno da autonomia alimentar, das hortas comunitárias e da sustentabilidade. A sessão evidenciou o cultivo como instrumento de transformação social, abordando o acesso à terra, o reconhecimento da produção local e a reaproximação aos ciclos naturais dos alimentos.

Debates sobre soberania e racismo alimentar

Em abril, foi a vez de a chef e sommelier Dani Souza dinamizar o círculo “Racismo Alimentar”, incentivando uma análise sobre a forma como as desigualdades raciais atravessam o sistema alimentar brasileiro. A conversa incidiu nos efeitos do racismo estrutural no acesso a alimentação saudável, na invisibilização dos saberes culinários afro-brasileiros e na importância de reforçar a representatividade negra na gastronomia. Houve ainda espaço para testemunhos e reflexões acerca de identidade, pertença e resistência cultural.

Ao longo da iniciativa, tornou-se claro que a alimentação vai muito além da sua vertente nutricional: é também uma forma de criar relações, salvaguardar memórias e fortalecer comunidades. Desta reunião de experiências nasceu a cartilha, elaborada colectivamente a partir dos contributos, das reflexões e dos saberes partilhados por quem participou.

A publicação convida a olhar para a comida como uma prática de cuidado, pertença e transformação social. Ao reunir as vozes, histórias e conhecimentos que surgiram durante o projecto, a cartilha leva os debates para lá dos encontros presenciais e permite que outras pessoas e territórios acedam a este património cultural colectivo.

A Cartilha Tempero de Oyá foi concretizada com o apoio do Programa VAI, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Sobre a Coletiva Tempero de Oyá

Fundada em 2015, em Perus, a Coletiva Tempero de Oyá surgiu como tributo à horta de Dona Iracema e à ancestralidade associada a Iansã. Desde então, desenvolve actividades que cruzam culinária, memória, formação e reforço comunitário, através de oficinas, cursos, acções sociais e iniciativas dedicadas à valorização da cultura alimentar afro-brasileira. Em 2024, acolheu investigadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) para um encontro centrado na história da cultura alimentar afro-brasileira.

Informações sobre o lançamento

Neste momento

Inês Margarida Correia

Inês Margarida Correia é engenheira alimentar e consultora em processos de panificação e confeção em forno, com especialização em fornos tradicionais e controlo de temperatura e humidade. No sitiodoforno, partilha conhecimento sobre técnicas de cozedura, manutenção de fornos e receitas que valorizam a tradição portuguesa com rigor técnico. Interessa-se particularmente por fermentações, lenha e eficiência energética aplicada à cozinha.

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