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Cabaz alimentar em Portugal pesa mais no salário e afeta o poder de compra

Mulher num supermercado a analisar um talão e um recibo com carrinho de compras e dinheiro à frente.
Neste artigo
  1. Pedidos de ajuda
  2. Mercado em crise
  3. Promoções falham e clientes perdem a paciência
  4. "O retalho não pode, sozinho, resolver"
  5. Porque é que o cabaz pesa mais no salário português?

Em Portugal, a mesma lista de compras pode custar menos do que noutros países europeus, mas exige uma fatia maior do rendimento. Ter um cabaz mais barato não torna necessariamente os alimentos mais acessíveis: na comparação realizada pelo JN, os salários baixos colocam o país no fim da fila em matéria de poder de compra. Com o custo de vida a subir, aumentam os pedidos de ajuda e "há cada vez mais pessoas estranguladas a recorrer a créditos", alerta a Deco.

A diferença está no esforço financeiro e na parte do salário que fica no supermercado. Na comparação entre cadeias de quatro países, os produtos tendem a ser mais baratos em Portugal. A análise aos hipermercados Auchan em três países ilustra essa situação: o cabaz português custa menos 12,37 euros do que o francês e menos 4,32 euros do que o espanhol.

Comparando cadeias diferentes, o Continente tem o cabaz mais barato, por 31,06 euros. O valor é 13% inferior ao praticado pelo Mercadona, em Espanha, onde a mesma lista de 15 produtos custa 35,10 euros. A diferença face ao cabaz da alemã Edeka, de 59,02 euros, é de quase 30 euros.

Quando se considera o rendimento de cada país, o impacto na carteira é maior em Portugal. O cabaz de 15 produtos representa 3,38% do salário mínimo português, de 920 euros, e 2,45% do ordenado-base alemão, de 2343 euros.

Pedidos de ajuda

O gabinete de proteção financeira da Deco recebe "cada vez mais pedidos de ajuda, principalmente neste último ano". A coordenadora, Natália Nunes, explica que a subida do custo de vida está a deixar mais agregados em situações de fim de linha e a levá-los a procurar apoio: "Todos os dias recebemos novos pedidos, tanto por chamada como presencialmente. Agora damos conta de que nos chegam casos mais graves, já com situações de crédito, com dívidas, que tentaram pagar a prestações".

Segundo a responsável, o problema "é transversal e afeta todos", abrangendo trabalhadores e reformados, "com os orçamentos estrangulados que não chegam para as despesas". Natália Nunes exemplifica: "Tentamos ajudar de várias formas, seja com aconselhamento para os agregados se reorganizarem a nível financeiro, como também intervindo quanto a pedidos de apoio".

Mercado em crise

Na perspetiva do diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas e Distribuição, os dados "evidenciam, sobretudo, um problema de poder de compra". Gonçalo Lobo Xavier destaca que os preços são fruto de "um esforço permanente de toda a cadeia de valor, desde a produção e transformação até à energia, aos transportes, à fiscalidade e à distribuição".

Rafael Alves Rocha, diretor-geral da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), vai mais longe. Do ponto de vista das empresas, considera que aproximar o salário mínimo português do praticado noutros países só será sustentável se estas conseguirem produzir mais e melhor. "Sem estes aumentos de produtividade, estará em causa a viabilidade de muitas empresas", alerta.

O diretor-geral da CIP sublinha ainda: "É evidente que o mercado dos bens alimentares está em crise". Acrescenta que "os custos energéticos estão a esmagar as margens das empresas ao longo de toda a cadeia alimentar", prejudicando "cada vez mais o consumidor".

Da Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola, Nuno Serra alerta que o "cabaz alimentar vai pesar cada vez mais". A razão apontada são as quebras nos apoios previstas para o setor agroalimentar no próximo ano, que terão maior impacto nos custos de produção.

Promoções falham e clientes perdem a paciência

Este ano, as queixas nos supermercados subiram 19,8%, com as promoções e o atendimento entre os principais motivos. O Portal da Queixa contabilizou já 626 reclamações relativas a descontos, cupões e ofertas, acima das 583 registadas durante todo o ano anterior.

Em dois anos, as reclamações sobre automação e falta de atendimento humano mais do que duplicaram, passando de 44 para 89: "Entre as situações reportadas estão a substituição de caixas com atendimento por caixas automáticas e a perceção de que os consumidores passaram a assumir tarefas anteriormente asseguradas por funcionários".

"O retalho não pode, sozinho, resolver"

Porque é que o cabaz pesa mais no salário português?

A distinção entre preços e poder de compra é central. Neste exercício, o cabaz de Portugal custa menos do que o de Espanha, mas tem um peso diferente no salário mínimo, o que reflete os rendimentos dos dois países. Ter fornecedores comuns não implica estruturas de custos iguais: há diferenças de escala, fiscalidade, logística e condições de operação.

O retalho pode baixar ainda mais os preços?

Embora desempenhe um papel importante na defesa do poder de compra, o retalho não consegue resolver sozinho um problema estrutural dos rendimentos da economia portuguesa. A concorrência intensa contribui para preços competitivos e exerce pressão para que baixem.

Mas subir os salários não ajuda, por si só?

Qualquer medida fiscal que procure aliviar os encargos das famílias, incluindo possíveis ajustes do IVA, deve ser analisada quanto à eficácia, à sustentabilidade e ao impacto real no consumidor. A APED tem defendido a relevância da estabilidade e da previsibilidade fiscais, bem como da redução dos custos de contexto que atingem toda a cadeia de valor.

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Inês Margarida Correia

Inês Margarida Correia é engenheira alimentar e consultora em processos de panificação e confeção em forno, com especialização em fornos tradicionais e controlo de temperatura e humidade. No sitiodoforno, partilha conhecimento sobre técnicas de cozedura, manutenção de fornos e receitas que valorizam a tradição portuguesa com rigor técnico. Interessa-se particularmente por fermentações, lenha e eficiência energética aplicada à cozinha.

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