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Porque é que o supermercado muda os produtos de lugar

Mulher com carrinho de compras no supermercado a consultar lista numa prateleira de bebidas.
Neste artigo
  1. Porque é que o seu supermercado está sempre a mudar os produtos de lugar
  2. Regras sanitárias e a pressão por escolhas mais saudáveis
  3. Stock, prazos de validade e redução do desperdício
  4. O efeito no seu comportamento de compra
  5. Conceitos importantes para compreender

Entrou no supermercado convencido de que resolveria tudo em quinze minutos.

Cinco corredores mais tarde, percebe que nada está no sítio onde esperava encontrá-lo.

As embalagens parecem diferentes, os produtos trocaram de zona e a memória parece falhar. Mas o problema não é a sua memória: trata-se de uma estratégia desenhada para alterar o seu percurso de compra e, naturalmente, o total da conta.

Porque é que o seu supermercado está sempre a mudar os produtos de lugar

Quem compra habitualmente na mesma cadeia reconhece esta situação: numa semana, o café está junto ao açúcar; na seguinte, surge perto das bolachas. Essa aparente desorganização não acontece por acaso.

Ao quebrar a rotina do consumidor, o supermercado aumenta o tempo de permanência na loja e abre espaço para compras não planejadas.

No retalho, esta prática é conhecida como “gestão de fluxo”. O princípio é directo: quanto mais tempo passar a circular entre as prateleiras, maior será a probabilidade de colocar produtos adicionais no carrinho. O trajecto deixa, assim, de ser meramente prático e transforma-se numa sequência de estímulos.

Estudos realizados internamente por cadeias de retalho e empresas de consultoria indicam que uma parte relevante das receitas resulta de produtos que não constavam da lista de compras inicial, os chamados “itens de impulso”. Ao alterar a disposição da loja, o supermercado procura precisamente incentivar estas decisões rápidas.

Como a “confusão” se transforma em lucro

No dia-a-dia, as equipas de merchandising estudam os locais onde o olhar dos clientes pára, os pontos em que abrandam e as prateleiras com maior interacção. Com essa informação, definem um mapa da loja composto por zonas quentes e frias.

  • Zonas quentes: espaços com maior movimento, como a entrada, as extremidades dos corredores e a área das caixas;
  • Zonas frias: cantos menos acessíveis, zonas no fundo da loja e prateleiras demasiado altas ou baixas;
  • Pontos extra: ilhas promocionais, pontas de corredor e expositores especiais fora da prateleira habitual.

A deslocação dos produtos entre estas áreas responde a metas específicas: destacar artigos com margens superiores, escoar existências paradas, apresentar novidades e conduzir os clientes para determinados corredores.

Quando um produto “some” do lugar habitual, muitas vezes ele só foi reposicionado para dividir atenção com outros itens que interessam mais à rede.

Regras sanitárias e a pressão por escolhas mais saudáveis

Nem todas as mudanças resultam apenas das decisões dos departamentos de marketing. Reguladores de vários países, incluindo os europeus, têm imposto restrições à exposição de produtos com elevado teor de açúcar, sal e gordura, sobretudo em áreas sensíveis, como as filas das caixas.

Estas exigências levam as cadeias a reconsiderar a planta das lojas. Chocolates e salgadinhos, por exemplo, deixam de ocupar determinados locais estratégicos, o que obriga a uma reorganização mais ampla das prateleiras. Em sentido contrário, os produtos considerados mais saudáveis passam a ter maior visibilidade.

Esta transformação acompanha uma tendência mais vasta de “comércio responsável”: governos, organizações de saúde e até investidores pressionam o retalho alimentar a promover escolhas com menos produtos ultraprocessados.

A reconfiguração de prateleiras também é uma resposta à cobrança por ambientes de compra que não incentivem excessos a cada passo.

As novidades também precisam de destaque

Há ainda a montra reservada à inovação. Novos aperitivos, bebidas vegetais, opções “zero açúcar” ou gamas premium raramente são colocados em zonas discretas. A chegada destes produtos costuma ser acompanhada por uma reformulação dos corredores.

As marcas pagam para obter espaço privilegiado, expositores temporários e pontas de corredor. A loja torna-se num tabuleiro sujeito a negociações comerciais permanentes; aquilo que o cliente vê como “bagunça” envolve, nos bastidores, contratos, objectivos e bonificações.

Stock, prazos de validade e redução do desperdício

A gestão de stock é outra explicação para esta dança de produtos. Os artigos próximos do prazo de validade não podem ficar esquecidos no fundo da prateleira. A solução passa por colocá-los mais à frente ou transferi-los para áreas mais visíveis, por vezes com desconto.

Objectivo da alteração O que o supermercado faz Efeito esperado
Evitar o fim da validade Coloca produtos próximos da data em locais de destaque Venda rápida e menor perda
Renovar o sortido Retira artigos com pouca saída das áreas mais nobres Libertar espaço para produtos mais rentáveis
Campanhas sazonais Junta produtos associados à mesma época, como a Páscoa ou festas populares Aumentar o valor médio da compra na ocasião

Este esforço está ligado ao discurso de combate ao desperdício alimentar. As grandes cadeias anunciam metas para reduzir perdas e recorrem à reorganização das prateleiras para vender produtos parados antes de estes se transformarem em resíduos.

Reposicionar produtos próximos do vencimento reduz o prejuízo financeiro e também a pegada ambiental da loja.

O efeito no seu comportamento de compra

A reorganização frequente influencia três factores psicológicos essenciais: hábito, atenção e sensação de urgência. Quando o percurso automático é interrompido, é obrigado a observar melhor o que o rodeia. Essa atenção adicional cria oportunidades para estímulos de marketing.

Ao longo de um caminho mais extenso, surgem tentações: um sabor novo de bolachas, uma bebida que nunca tinha visto ou uma promoção colocada mesmo na esquina do corredor. A lista de compras deixa de funcionar como um guião rígido e passa a ser uma sugestão mais flexível.

Existe também o efeito “já que estou aqui”. Ao encontrar-se num corredor que normalmente não visitaria, aumenta a probabilidade de acrescentar algo “para experimentar” ou “para ter em casa se precisar”. Pode parecer inofensivo, mas, repetido de semana para semana, este comportamento pesa no orçamento.

Como o consumidor se pode proteger

Sem necessidade de deixar de frequentar o supermercado do bairro, é possível limitar o impacto destas tácticas. Algumas medidas simples podem ajudar:

  • Preparar uma lista de compras organizada por categorias, como frutas e legumes, limpeza e lacticínios;
  • Definir um montante máximo antes de entrar na loja e acompanhar o total durante as compras;
  • Evitar percorrer corredores ao acaso quando não precisa de artigos que constem da lista;
  • Deixar a consulta das novidades para depois de recolher tudo o que é necessário.

Outra estratégia consiste em observar com atenção a forma como o supermercado da sua zona se altera. Reconhecer padrões de reorganização permite perceber quando um produto foi mudado apenas para incentivar uma compra por impulso, e não para facilitar a sua vida.

Conceitos importantes para compreender

Dois conceitos surgem frequentemente quando se fala da disposição de um supermercado. O primeiro é “gôndola”: na prática, corresponde à estrutura de prateleiras onde se encontra a maioria dos produtos. Cada espaço atribuído a uma marca, em cada nível de altura, tem um valor distinto nas negociações entre a indústria e o retalho.

O segundo conceito é “sortimento”: trata-se do conjunto de artigos que a loja decide comercializar em cada categoria. Quando o sortimento se altera - pela entrada de novas marcas, pela redução de formatos ou pela introdução de linhas mais saudáveis -, o desenho da gôndola tem de ser revisto, o que também contribui para a sensação de mudança generalizada.

Estes ajustamentos podem produzir efeitos acumulados. Um corredor redesenhado para favorecer produtos com maior margem, conjugado com regras que remetem os ultraprocessados para zonas secundárias e com campanhas contra o desperdício, acaba por criar uma experiência de compra muito diferente da que existia há poucos anos.

Para quem tem um orçamento limitado, pode valer a pena comparar cenários: quanto gasta ao cumprir rigorosamente a lista e quanto gasta quando “se deixa levar” pela nova organização da loja. Em muitos casos, a diferença mensal já pode equivaler ao valor de uma factura de um serviço ou de uma compra maior de proteína, por exemplo.

Também é útil reparar nos dias em que a loja parece estar em “obras silenciosas”, com paletes nos corredores e funcionários a alterar etiquetas. Normalmente, é nessa altura que entra em vigor uma nova estratégia, com impacto directo na forma como vê, escolhe e paga pelos mesmos produtos de sempre.

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Inês Margarida Correia

Inês Margarida Correia é engenheira alimentar e consultora em processos de panificação e confeção em forno, com especialização em fornos tradicionais e controlo de temperatura e humidade. No sitiodoforno, partilha conhecimento sobre técnicas de cozedura, manutenção de fornos e receitas que valorizam a tradição portuguesa com rigor técnico. Interessa-se particularmente por fermentações, lenha e eficiência energética aplicada à cozinha.

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